Ace Combat: Ikaros in the Sky 
Unofficial Português Translation

 Cenário 

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Esquadrão Conjunto de Avaliações de Teste do Quartel General de Pesquisa Técnica

 

Oficialmente designado como ‘Esquadrão Conjunto de Avaliações de Teste da Divisão de Pesquisa Tecnológica Aeronáutica do Laboratório de Equipamentos Integrados do Quartel General de Pesquisa Técnica do Ministério da Defesa.’ Esta é uma organização especial dentro do Quartel General de Pesquisa Técnica do Ministério da Defesa que conduz pesquisas sobre a utilização do Caça de Suporte Avançado e embarcações de escolta aérea (basicamente um porta-helicópteros) para fortalecer as capacidades de defesa do Japão em suas águas costeiras. O grupo consiste em pessoal transferido temporariamente tanto da Força Aérea de Autodefesa do Japão Quanto da Força Marítima de Auto-Defesa do Japão.

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Sonoda

Codinome: ‘’Descente’’

Piloto de teste no ASF-X Shinden II. Detém a patente de capitão. Adjunto de Mishima, ele é a melhor fonte de informações no esquadrão.

Oose

Codinome: ‘’Wannabe’’

Piloto de teste no ASF-X Shinden II. Detém a patente de primeiro tenente. É um piloto habilidoso e um hábil programador.

Sato

Responsável pelo desenvolvimento e planejamento do ASF-X Shinden II. Detém a patente de major-brigadeiro.

Mishima

Oficial no comando do Esquadrão Conjunto de Avaliações de Teste. Detém a patente de major.

Zaitsu

Supervisor do programa de desenvolvimento do ASF-X Shinden II. Um burocrata do Ministério de Defesa de posição equivalente a um gerente de seção.

Togura

O professor que participou no programa ‘Q-X’ de Aeronave Não-Tripulada de Reconhecimento Avançado. Ele foi desenvolveu um novo sistema de controle no Q-X.

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Kei Nagase

Codinome: ‘Edge’

 

A protagonista desta história. Sua patente é de segunda tenente. Ela é a piloto de teste do ASF-X Shinden II. Ela é a membra mais jovem do Esquadrão Conjunto de Avaliações de Teste e é a prodígio do esquadrão e confia em seus instintos quando pilota.

 

Ela pilota caças da Força Aérea de Autodefesa do Japão e é uma integrante importante do esquadrão que utiliza os Shinden IIs, o qual será operado a partir de porta-helicópteros quando completo. 

Wataru Asano

Codinome: ‘Aster’

 

Piloto de teste do ASF-X Shinden II. Detém a patente de segundo tenente. Apesar de sua aparência sombria, ele é um piloto de F-15J veterano.

 

Ele juntou-se ao grupo no meio do programa ASF, mas é um piloto talentoso que opera sua aeronave usando um pensamento lógico.

 

Ele pertencia ao 306° Esquadrão Tático de Caças junto a Nagase no passado e até se dava bem com ela, mas por alguma razão, os detalhes do que aconteceu entre os dois não é claro.​

Esboço feito por Shoji Kawamori

Esboço do design do Shinden II. Entre outras coisas, asas enflechadas para frente de geometria variável e imagens de sua utilização demonstram que mesmo nesta fase, o conceito do Shinden II estava sendo finalizado.​

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Caça de Suporte Avançado

ASF-X Shinden II

Uma obra-de-arte da tecnologia moderna, o caça de suporte avançado está em desenvolvimento para ser operado pelas forças de autodefesa do Japão. Ao mudar sua geometria, ele mantém estabilidade em todas as velocidades cabíveis, ostentando versatilidade em ataques navais em águas territoriais, contra-ataques contra forças anfíbias inimigas, suporte aéreo de proximidade em territórios montanhosos e operações onde as linhas de frente estão em movimento constante. A geometria variável com asas enflechadas para frente o dão alta manobrabilidade e o caça se sobressai em confrontos de curta distância, enquanto a combinação única de dois motores montados verticalmente dão uma capacidade para operações STOVL*. Chamado “Shinden II.”

Especificações

País de desenvolvimento: Japão / Indústrias Pesadas Taiga

Comprimento total: 19.5 m

Largura total: 14.0 m

Altura total: 3.56 m

 

Armamento:

Compartimento de armas frontal: x4 Mísseis ar-ar de curta distância

Suportes sob as asas: x6 Mísseis ar-ar de longa distância ou x4 lançadores de foguetes de 70mm

Compartimento de armas traseiro: 2x Mísseis anti-navios guiados

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​Conteúdo do Livro

 

Prólogo

ASF-X

 

Capítulo 1

Um novo rosto

 

Capítulo 2

Q-X (Quox)

Exercício

Acidente

 

Capítulo 3

Conspiração

SSTO

A Luta Real

 

Epílogo

Ikaros​

 Prólogo 

ASF-X

​Página 10

 

​Tudo ao meu redor era azul. Céus azuis abertos acima, e o oceano azul escuro embaixo. Ambos nada mais que enormes espaços azuis. O horizonte se estendia por quilômetros em toda direção.

 

“Aqui fala Edge, alvo localizado. Aguardando ordens.”

 

“Entendido. Comece o teste imediatamente.”

 

A guarda-marinha Kei Nagase decidiu não seguir estas ordens.

 

“OK, eu voarei por cima uma vez para confirmar o alvo, então voltarei e iniciarei o teste. ”

 

Houve uma breve pausa.

 

“Entendido, inicie o teste assim que o alvo for confirmado.”

 

​A torre de controle não concordava com o que Kei estava prestes a fazer, mas não tinha motivos para impedi-la.



 

Página 11

 

O protótipo modelo um, "Zero Um", voou sobre a localização do alvo.

 

O alvo era um balão laranja, 3 metros de diâmetro. Facilmente visto à distância. O balão estava preso a uma boia com um transponder GPS. Era meramente decorativo. Não importava se o foguete atingisse o alvo ou não. O verdadeiro teste era o disparo do foguete. A boia estava lá meramente para mostrar o centro da área de teste, para que a torre de controle soubesse quando Zero Um tivesse entrado nesta para lançar o foguete.

 

Este teste estava sendo feito apenas para prover dados aos engenheiros. Não haviam alvos verdadeiros aqui, para testar a habilidade da Nagase. 

 

Ela apertou o botão do painel de controle uma vez, e então ligou os sensores ópticos e a tela multisensor. O painel do console acendeu, e a tela multifuncional foi ativada. Depois de mexer em algumas chaves, os dados de navegação apareceram na tela multifuncional (TM). (MFD: "multi-function display" - tela multifuncional.) 

 

A TM ficava embaixo do painel de chaves, o que a tornava difícil de ver enquanto se estava pilotando. No lado direito da TM, havia um mapa do mar abaixo que estava sendo detectado pelos sensores ópticos da aeronave.



 

Página 12​

 

Modelos protótipo geralmente possuem um sistema avançado de mira guiado a laser, mas Zero Um é o único que foi equipado com um sistema especial, guiado a laser, montado na frente da aeronave.

 

Zero Um foi originalmente desenhado para ser uma plataforma de testes aerodinâmicos, então não possuía esses tipos de sensores. Também possui radar e sensores ópticos. Não há sistemas de controle de armas a bordo. 

 

Nagase virou uma chave na TM, e uma tela mostrando o mar abaixo apareceu com um círculo branco apontado para a área abaixo. Uma voz irritada vindo da torre de controle gritou, “ Edge! O que você está fazendo?!” 

 

A TM e HUD (Heads Up Display - tela de rosto) do Zero Um estavam sendo monitorados pela torre de controle. 

 

“Vou usar os sensores para localizar o alvo abaixo”, respondeu Nagase. 

 

“O que você está tramando?”, respondeu a torre de controle. 

 

​“Estou apenas usando um aplicativo customizado para melhorar a tela”, Nagase disse.



 

Página 13​

 

“Relaxa! Não tem perigo algum!”

 

De repente, uma voz diferente cortou a transmissão da torre de controle. Era o comandante do grupo de pilotos de teste, o major Mishima.

 

“Você instalou seu aplicativo próprio, como assim não há perigo nenhum?”

 

“Foi o Wannabe que fez, não tem nada de perigoso”, respondeu Nagase.

 

​O ASF-X vem instalado com um computador de regulagem padrão, mas esse aplicativo permitia que funções adicionais fossem postas no sistema com facilidade. A versão que a Nagase instalou foi programada por um outro piloto de testes, chamado Wannabe. 

 

Esse aplicativo mostra o curso e a janela de tempo necessárias para que um foguete acerte seu alvo. O computador de regulagem é rígido e permite que este tipo de aplicativo simples rode, mas outros mais complexos, que fazem outras coisas, são barrados. 

 

Se um FCS* genuíno estivesse instalado, a alça de mira seria mostrada no HUD, mas como se trata de um FCS informal, ela só aparece no TM.

 

(FCS = Fire Control System - sistema de controle de armamentos.) 

 

​Graças a este aplicativo e às informações extras provenientes das TMs, acertar alvos com os foguetes deveria ser bem mais fácil.



 

Página 14​

 

Não é nada comparado a um FCS de verdade, mas é bem melhor que os sistemas de mira obsoletos que os primeiros jatos dos anos 50 usavam. Para a Nagase, que não faz ideia de como os sistemas de mira daquela época funcionavam, é difícil entender a escala do avanço tecnológico. 

 

“Não aprovo isso. Você será punida quando você voltar”, Mishima disse. 

 

Nagase sorriu para si mesma. 

 

“O Mishima disse que não aprova, mas não disse pra parar de usar. Ele disse que eu vou ser punida, mas não disse que não serei perdoada”. Nagase riu sozinha. 

 

Mishima é um piloto, assim como eu. É por isso que eu respeito ele e gosto dele. 

 

“Aqui fala Edge. Vou voar de volta para o alvo e iniciar o teste.” 

 

Zero Um graciosamente girou e se virou para a direção oposta. 

 

O ASF-X foi desenhado para ser um acrobata aéreo.

 

O design aerodinâmico o torna extremamente estável e simples de se manobrar. Rolar e piruetar é muito fácil. Tão fácil, que a Nagase e os outros pilotos de teste às vezes acham que o avião não os desafia o suficiente. 

 

​Nagase deu zoom na TM e localizou o alvo. O balão laranja apareceu na tela e ela voou em direção a ele.



 

Página ​15​

 

Nagase teve um mau pressentimento. Laranja geralmente é uma cor de alerta quando se sinaliza para aeronaves. Se algo laranja aparecesse como cinza nos sistemas de

monitoramento da aeronave, há uma chance de que o piloto possa cometer um erro. 

 

Ela usou seu dedo para marcar o alvo na tela. 

 

“Alvo travado!” 

 

Um símbolo no formato de um X apareceu sobre o balão. Um círculo apareceu também, e começou a se alinhar com o X. Se o aplicativo customizado funcionasse direito, o foguete deveria ser disparado assim que o círculo se alinhasse sobre o X. Isto deveria garantir um acerto direto. 

 

Se a velocidade de voo e as condições atuais do vento não mudassem, não deveria haver problema. Mas para piorar tudo, o círculo continuava balançando de um lado para o outro mesmo que a aeronave estivesse voando reto. 

 

Aparentemente havia algo errado com os dados. 

 

“Aqui fala Edge. Disparei um foguete no alvo. Vou dar a volta e lançar mais um”, Nagase disse. 

 

Atirar num alvo duas vezes é bem normal. 

 

"Entendido. Comece o teste agora.” 

 

Pelo jeito, a torre de controle desistiu, e não se opôs ao plano. 

 

​O propósito principal deste exercício de teste é medir o desempenho de foguetes disparados em voo nivelado. Atacar alvos nessa posição é impossível, então a precisão não faz diferença.



 

Página ​16​

 

Se um ASF-X fosse participar de um ataque ao solo, ele automaticamente entraria em modo de mobilidade melhorada, que permite o voo em velocidades baixas com maior facilidade. 

 

O círculo na TM se sobrepôs ao X. 

 

“Fogo!”

 

A aeronave tremeu um pouco, mas fora isso todo o resto foi conforme o planejado. Uma pequena mudança na sensibilidade do voo era de se esperar devido à perda do peso do foguete, mas não houve muita diferença. Lançar um só foguete não mudaria muito o peso da aeronave. 

 

O foguete se lançou em direção ao seu alvo, deixando por trás de si uma trilha branca, e caiu com tudo no mar. Não possuía carga explosiva, mas a força com que atingiu o mar fez com que uma coluna d'água subisse a uma altura considerável. 

 

As leituras no foguete lançado foram bem detalhadas. O foguete errou por meros 30 metros. Nagase deu meia-volta e se preparou para disparar de novo. O círculo começou a ir em direção ao X novamente. Nagase levou o erro em consideração e alinhou sua alça de mira para outro disparo ao alvo.



 

Página ​​17​

 

“Fogo!” 

 

Nagase sentiu um calafrio de satisfação enquanto o foguete deixou a aeronave e foi em direção ao alvo. Dessa vez, tem que acertar. Porém, assim que o foguete foi lançado, algo deu errado. 

 

O nariz do Zero Um repentinamente começou a apontar diretamente para baixo e a aeronave começou a descer em direção ao mar. Nagase desesperadamente puxou a manete, mas o avião continuava a cair. 

 

O avião perdia altitude muito rápido. O voo já era em baixa altitude para que pudesse fazer os testes com o foguete, mas agora o oceano estava ainda mais perto. Os sistemas de controle detectaram a perda de altitude e começaram a mostrar alertas e avisos. 

 

O único problema era o movimento das asas. Quem sabe havia outra forma de parar a descida. Nagase se virou para o painel de controle e removeu algumas restrições de

voo. Ela mudou a direção das turbinas de empuxo vetorizado para combater a queda, o que ajudou o avião a conter sua descida. Estava funcionando. A aeronave voltou a se nivelar. 

 

“Aqui fala Edge. Vocês viram o que acabou de acontecer?!” 

 

“Sim, vimos tudo. Traga o Zero Um de volta para a base imediatamente.” 

 

​O pessoal da torre de controle deduziu que a causa do problema foi a perda de peso quando os foguetes foram lançados. Depois dos disparos, o sistema de voo errou quando tentou se ajustar ao novo peso da aeronave.



 

Página 18​

Se a aeronave conseguisse se estabilizar, não teria mais problema. Nagase fingiu mudar de curso, e voltou a procurar pelo seu alvo na água. Porém, não havia sinal do balão na superfície da água. 

 

Ela ainda não havia percebido que o foguete tinha acertado a boia embaixo do balão laranja. A boia era descartável, e não seria problema algum recuperá-la e consertá-la, então não era uma perda séria. 

 

Entretanto, ainda faltava a “punição” do Mishima. E pra piorar, a Nagase quase derrubou seu avião no mar depois de usar um aplicativo customizado. Ela não estava com pressa alguma para voltar para a base.

 Capítulo 1 

Novo Rosto
 

​Página 20

​O segundo-tenente Asano Wataru olhava com atenção na direção do horizonte enquanto o Zero Um se aproximava da base. Esta era a sua primeira vez a ver o ASF-X com seus próprios olhos. Porém, ao chegar ao seu destino o Zero Um passou justamente acima da base. Após dar voltas ao redor da base por um tempo, a aeronave finalmente começou a aproximação de pouso.

 

Então essa é a Nagase e seu estilo desnecessário de se divertir?

 

Quando o nome da piloto familiar passou por sua mente, os lábios de Asano curvaram-se para cima. Já fazia tempo desde a última vez em que ele havia se surpreendido assim. Graças ao tumulto antes da aproximação, Asano conseguiu ver claramente a fuselagem do Zero Um. Apesar de ter visto a aeronave em fotos e na televisão, ela parecia muito diferente quando vista pessoalmente.

 

Mas olha só que aeronave sexy…

 

E realmente essa era uma aeronave bem incomum e única. Os aerofólios eram divididos em três partes - as canards na frente, as asas e a cauda. As asas de enflechamento para frente permitiam ao Zero Um não somente fazer manobras acrobáticas e decolar ou pousar em curtas distâncias (STOL), mas também retardavam o ponto de separação do ar nas assas principais, portanto reduzia a turbulência e a velocidade de estol.

 

 

Página 21

 

As asas com enflechamento par frente ajudavam o Zero Um a rolar agilmente e reduziam a resistência aerodinâmica durante o voo transônico. Elas também reduziam a velocidade de estol durante o voo com baixa velocidade. As asas de angulação variável davam a aeronave uma incrível manobrabilidade enquanto o piloto era capaz de ajustar a aerodinâmica da aeronave quando necessário. Os aerofólios na cauda, que também tinham uma angulação ajustável, serviam tanto como estabilizador horizontal quanto vertical. O Zero Um era um caça bimotor a jato, mas a configuração de cada motor era muito diferente do comum. Os motores eram montados separadamente, um acima do outro. Tanto a combinação incomum dos motores quanto a da tubeira com empuxo vetorial eram as razões por trás da excelente manobrabilidade e performance STOL da aeronave. E é claro, não podemos esquecer do sistema de ventilação e resfriamento da aeronave em seu estado-de-arte. Por fim, a característica stealth do Zero Um era o toque final para justificar toda a pesquisa e trabalho duro dedicado à aeronave.

 

O Zero Um era uma aeronave de performance absurda em todos os sentidos. Era como se o Zero Um tivesse uma enorme ganância em manter todas as suas partes pois muitas delas simplesmente não combinavam uma com as outra. Apesar do visual de outro mundo, havia um ar de salubridade que ninguém conseguia explicar.

Apesar do ASF ser o protótipo da aeronave de suporte F-3, o ASF-X era o modelo teste sendo usado no desenvolvimento da próxima geração do programa Advanced Support Fighter (Caça de Suporte Avançado), o qual substituiria o caça de suporte F-2. A Força Aérea de Auto-Defesa do Japão (FAADJ) e a Marinha de Auto-Defesa do Japão (MADJ) utilizariam o F-3 no futuro próximo. O ASF-X era para ser utilizado antes mesmo do caça de suporte F-3 entrar em serviço a fim de apressar o processo de desenvolvimento. Por isso estava planejada a utilização de armamentos que teriam o mesmo poder de destruição, ou até mais, comparado às armas do caça de suporte F-2 para que o ASF-X recebesse seu status operacional em um futuro próximo.


 

Página 22​

 

Quando isso acontecesse, o ASF-X teria uma boa chance de ganhar o título de melhor caça de todos os tempos. Enquanto Asano pensava sobre isso, ele ouviu os sons dos motores em potência total - Zero Um acabara de pousar. Asano se perguntava se o ASF-X poderia lhe introduzir a um novo patamar de pilotagem.​

 

A velocidade de estol do ASF-X era relativamente baixa comparada a de outras aeronaves supersônicas. Isto havia sido comprovado tanto em simulações computadorizadas como em testes de voo. Como mencionado, o ASF-X tinha uma performance STOL excelente. Se suas asas com angulação variável fossem usadas eficientemente, era possível voar a uma velocidade inacreditavelmente baixa. Porém, a aeronave havia pousado muito mais rapidamente do que seu limite. Isso devia-se a inexperiência do piloto em controlar a resistência aerodinâmica em pousos com baixas velocidades. O efeito de solo também podia fazer com que o piloto perdesse o controle da aeronave. De qualquer maneira, não era aceitável expor a única aeronave de teste a perigos por motivo algum. Além disso, o ASF-X podia pousar verticalmente em teoria pois as aeronaves F-3 requisitadas pela MADJ deveriam ser capazes de decolar a partir de pistas curtas e pousar verticalmente.

 

De vez em quando, Nagase tinha um impulso de alongar a distância de pouso para que o taxiamento fosse mais rápido ao pousar com uma angulação que estava fora dos limites estipulados. Porém era sabia melhor do que ninguém que não podia deixar que seus impulsos virassem ações.


 

Página 23​

 

​De qualquer maneira, o Zero Um veio a sua parada total com 1,000 metros restando na pista. A pista de pouso tinha 3,000 metros por razões de segurança. Após seguir as instruções dos sinaleiros, ela taxiou algumas centenas de metros em direção ao pátio de aeronaves perto do hangar. Quando Nagase viu o veículo de reboque se aproximar ela desligou os motores, abriu a capota e tirou seu capacete. O interior do capacete estava quente e cheio de vapor, não importava o quanto a tecnologia melhorasse. O técnico de manutenção de aeronaves pulou do veículo de reboque e montou a escada a aeronave.

 

“Ótimo trabalho, Nagase.”

 

“Obrigada.”

 

O técnico abaixou sua voz levemente.

 

“Algo de errado aconteceu? O Mishima está puto da vida.”

 

“Bem… foi algo de leve.”

Nagase começou a andar para os dormitórios enquanto mantinha seu olhar focado no veículo que rebocava o Zero Um para o interior do hangar. Ela percebeu que havia alguém na cobertura dos dormitórios. Parecia alguém que ela já tinha encontrado anteriormente, mas o vulto desapareceu antes que ela pudesse identificar quem era.



 

Página 24​ 

 

A aeronave caça de suporte F-3 era o cúmulo da esperança Japonesa em igualar o seu poderio militar com o dos países vizinhos cujos arsenais estavam crescendo com tecnologia avançada.

 

O ápice da ciência moderna e tecnologia militar estavam envolvidos no seu desenvolvimento. O F-3 era um caça multi-função supersônico capaz de realizar missões de combate aéreo, ataques ar-terra, ataques navais entre outras. Com a vantagem de ser uma aeronave STOVL, o F-3 poderia decolar a partir de porta-aviões e pousar a em bases avançadas na linha de frente.

Além de poder cumprir várias missões numa mesma surtida, o F-3 também poderiam mudar sua configuração durante a missão. O F-3 foi nomeado como caça swing-role (mudança instantânea) graças a sua versatilidade. O caça de suporte F-3 era o ápice da tecnologia militar do Japão.


 

Página ​25​

 

​Quando o programa de desenvolvimento do F-3 foi anunciado, alguns oficiais estavam céticos dado a ideia e escala do projeto. Na vida em geral e particularmente na fabricação de aeronaves, era necessário decidir qual aspecto deveria ser priorizado. Mas a Força Aérea de Auto-Defesa do Japão precisava de uma aeronave versátil capaz de fazer o impensável.

O século 21 era uma era de superpotências lutando por uma nova ordem mundial.

As ameaças militares da República já não mais eram uma possibilidade, mas sim uma realidade. A República [1] havia declarado seus interesses em expandir a influência da nação ao redor do globo. Além disso, a República já não mais seguia os acordos internacionais, os quais eles diziam ter sido orquestrados pelas nações ocidentais com o propósito de oprimi-los. Fronteiras e políticas internacionais começaram a perder seus significados devido ao poderio militar da República. A República demandava a regulamentação da entrada de embarcações estrangeiras dentro de sua zona econômica exclusiva enquanto rapidamente aumentava seu poder militar e político.

 

Além disso, a República começou a chamar os mares próximos de sua área econômica exclusiva como “o litoral próximo” e passou a reivindicar posse da região, causando disputas territoriais com os países vizinhos. Isto causou uma repercussão política contra a República, mas “o litoral próximo” seria considerado o território da Républica no futuro próximo.

 

Apesar de declararem suas pretensões não-oficialmente, alguns oficiais militares deram um passo além ao comentar que as missões pacificadoras no oeste do Pacífico deveriam ser conduzidas exclusivamente pela República. Os jornais e a mídia dos países vizinhos retalharam no dia seguinte, criticando duramente o comportamento agressor da República. Especialistas políticos e militares acreditam que esta será a política oficial da República em breve.



 

Página ​26​

 

Enquanto isso, os Estados Unidos, considerados como a polícia mundial, demonstraram em sua política uma posição em que não levara a sério as ameaças militares e as reivindicações sobre a posse do “litoral próximo” da República. Portanto ficava aos países vizinhos demonstrar sua vontade e capacidade de defender seu território.

 

Havia a necessidade de um aumento no poderio militar e a demonstração de força para manter a autonomia nacional durante as tensões internacionais entre as superpotências e suas fronteiras. A defesa nacional era um assunto de urgência e tinha que ser priorizada pelos países que detivessem disputas territoriais com as superpotências. As tensões se intensificavam e o tempo corria para o Japão.

Apesar do F-3 ser uma solução temporária, ele se assemelhava a um curativo para um corte aberto, uma solução a longo prazo era necessária.

 

Era numa situação como essa que a Taiga Indústrias Pesadas chegou ao resgate. A Taiga Indústrias Pesadas era uma fabricante de tamanho médio de jatos executivos. Essa é a companhia por trás do desenvolvimento do F-3. Dado os vários anos de fabricação de jatos executivos, a Taiga Indústrias Pesadas havia acumulado muita experiência no desenvolvimento de aeronaves, o que acabou por encurtar o tempo de desenvolvimento da próxima geração de caças de suporte.

 

A carreira de piloto de caça de Nagase havia sido tão longa quanto o programa de desenvolvimento do ASF. Nagase decidiu se tornar uma piloto de caça durante o período em que o ministério da defesa do Japão anunciou o programa ASF.

 

Nagase havia se alistado primeiramente na Marinha de Auto-Defesa do Japão ao apostar nos rumores sobre um porta-aviões sendo desenvolvido sob pretensa de ser um destróier de escolta e após descobrir que a Força Aérea de Auto-Defesa do Japão não empregava mulheres como piloto de caça.



 

Página ​27​

 

​Nagase, a qual tinha ingressado a MADJ, era primeiramente qualificada a operar aeronaves de asas fixas. Mas logo depois ela deu entrada no programa de treinamento de piloto de asas rotativas com o 211º Esquadrão de Treinamento Naval na Base Aérea da Kanoya.

 

Isso devia-se a probabilidade dos porta-aviões carregarem aeronaves STOVL e a proficiência em helicópteros seria uma vantagem para um piloto de aeronaves com pouso vertical.

 

Nagase pensou que a experiência na operação de helicópteros lhe daria uma

vantagem na hora dela se tornar uma piloto de caça ao invés de uma piloto de asas fixas com missões de guerra antissubmarina.

 

Não demorou até as Forças de Auto-Defesa do Japão anunciaram oficialmente a construção dos supostos porta-aviões.

 

Nagase havia sido escolhida como uma candidata para posição de piloto caça e foi transferida para um esquadrão de caça da Força Aérea de Auto-Defesa do Japão. 

 

​Agora pertencente aos Golden Eagles, o 306º Esquadrão Tático de Caça da Força Aérea, Nagase recebeu o treinamento mais rigoroso para tornar-se uma piloto de caça no F-15J e uma piloto de helicóptero em missões de busca e salvamento.

 

Apesar da falta de anúncios oficiais, a Marinha de Auto-Defesa do Japão havia decidido que o F-3 seria uma aeronave STOVL e a instituição já estava à procura de um piloto de caça supersônico que também fosse capaz de pilotar um helicóptero.

 

Ao concluir seu treinamento com os Golden Eagles, Nagase foi transferida para a 19ª Força Tarefa com a finalidade de ganhar mais experiência em interceptações. Logo após ela foi escolhida como piloto de teste do ASF-X.



 

Página 28​

 

​Seu título oficial era: piloto de teste do Esquadrão Conjunto de Avaliações de Teste, o qual pertencia a Divisão de Pesquisa de Engenharia Aeronáutica sob o Departamento Conjunto de Pesquisa de Equipamento, o qual por sua vez pertencia ao Instituto de Tecnologia e Pesquisa do Ministério da Defesa do Japão.

 

Apenas os mais hábeis pilotos de toda a nação eram selecionados para este esquadrão.

Nagase havia superado vários obstáculos em sua longa jornada a se tornar um dos melhores pilotos da nação e ser selecionada para o projeto de desenvolvimento do caça que poderia ser o melhor de todos os tempos.

 

O horário do debrifim não tinha sido alterado e o voo teste havia terminado antes do antecipado graças ao acidente anterior com o foguete.

 

Pelo contrário, tanto Nagase como Ose deveriam correr e dar duas voltas ao redor da pista de 3,000 metros como punição. Eles tinham mais cúmplices, masnem Nagase nem Ose deduraram seus companheiros. E o “experimento com armas” da Nagase acabou por ser incluído ao plano original do teste, isso graças ao Mishima.

Ao mínimo pode-se dizer que o Mishima detinha uma certa influência.

 

Mishima era o supervisor dos pilotos de teste do Esquadrão Conjunto de Avaliações de Teste e sua função não mais incluía pilotar a aeronave.

 

Mas deve-se mencionar que o Mishima foi a primeira pessoa a pilotar o ASF-X.

 

Mishima também foi o instrutor de voo de Nagase em seu treinamento para piloto de caça.

Ele havia experiência e competência o suficiente para liderar os pilotos de teste.



 

Página ​29​

 

​E é claro, as suas habilidades como piloto não era a única razão pela qual Nagase e os outros pilotos o respeitavam. Ele era durão, mas também era justo ao deixar passar algumas instâncias de mal comportamento. E além de tudo, ele era confiável e o tipo de pessoa que você poderia contar no caso de uma emergência. E é por isso que o Mishima era imensamente respeitado pelos pilotos de teste e outros oficiais. Após um breve resumo sobre o experimento que aconteceu naquele dia, Nagase explicou o problema que havia acontecido em seu voo de teste durante o debrifim. Logo após os técnicos brevemente explicaram a causa do problema de acordo com a análise deles e agora era a hora da sessão de perguntas do debrifim.

 

“Apesar de termos a impressão momentânea que estamos lhe dando com um pequeno problema, existe a possibilidade que o incidente tivesse se tornado uma situação irreversível caso a altitude da aeronave ou a maneira em que Nagase reagiu ao problema tivessem sido diferentes. Eu não vou tolerar nenhum risco ou insubordinação que poderia nos custar o Zero Um num acidente. Como explicado anteriormente, precisamos de uma inspeção completa para identificar a origem do problema. Portanto, o voo de teste de amanhã está cancelado. Isso é tudo para o debrifim. Vocês estão livres agora.”

 

O major Mishima, o oficial líder do Esquadrão Conjunto de Avaliações de Teste tinha terminado o debrifim. Ele chamou Sonoda como se tivesse lembrado de algo justamente após Nagase se levantar para contestar sua decisão.

 

“Sonoda, venha comigo. Eu lhe apresentarei o segundo tenente Asano.”

Quando Nagase ouviu esse nome, ela se perguntou se a pessoa que ela viu na

cobertura anteriormente era Asano. O rumor de que um novo piloto se juntaria ao esquadrão já circulava faz tempo. Isso só podia indicar que Asano era o novo piloto de teste a juntar-se à equipe. Nagase havia trabalhado com ele anteriormente quando ambos estavam nos Golden Eagles em Komatsu.



 

Página ​30​

 

Nagase se destacava em diante dos membros dos Golden Eagles, o 306º Esquadrão Tático de Caça da Força Aérea, já que ela tinha suas origens na Marinha de Auto-Defesa do Japão. Por essa razão ela não tinha proximidade com quase ninguém, mas ela acabou por conhecer Asano pois ambos pilotavam o F-15.

 

Ao sair da sala de debrifim, Nagase tentava relembrar quem era Asano, mas ela foi parada por Ose.

 

“Nagase, quem é esse Asano? Você já trabalhou com ele antes, né?”

 

“As notícias voam aqui, hein?”

 

“Não seja boba. O anúncio que teríamos um novo piloto se juntando ao esquadrão foi feito faz tempo. Você sabia que era o Asano que se juntaria a nós? 

 

“Não tinha ideia. Asano foi transferido para os Golden Eagles, o 306º Esquadrão Tático de Caça, 3 meses após minha chegada lá, então acho que ele é o novato comparado comigo. Ele era um piloto hábil se eu me lembro corretamente.”

 

“Huh, é mesmo?”

 

“Porquê? Você tem algum interesse nele.”

 

“Não, eu... bem, como posso dizer isso... Eu nunca ouvi falar dele até agora.”

Era óbvio que existia um número limitado de pilotos de caça no Japão. E na pequena comunidade de pilotos de caça onde todos se conheciam, você precisava ser ‘famoso’ e ter uma boa reputação para ser selecionado como piloto do caça de próxima geração. Nagase, Ose e Sonoda, todos os três já conheciam e tinham ouvido falar um dos outros antes de serem selecionados para trabalharem juntos.



 

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​Nagase achou estranho o que Ose havia mencionado.

 

“Bem, acho que vou acabar por conhecê-lo quando nos encontrarmos. Eu acho

que ele deve ser apresentado até o final do dia.”

 

Ose estava cética sobre Asano já que nunca havia ouvido falar dele. Mas ele achava que não importaria se ele fosse famoso ou não já que a decisão de sua transferência a equipe já havia sido tomada.

 

“É, já faz tempo da última vez que vi ele.”

Nagase e Ose seguiram rumos diferentes, ambos pensando sobre o assunto.

 

Asano foi apresentado no final do dia. A cadeia de comando do Esquadrão Conjunto de Avaliações de Teste não tinha sido definida claramente. Não haviam muitos pilotos no momento já que o Zero Um era o único ASF-X que Esquadrão Conjunto de Avaliações de Teste tinha. Também era difícil impor a hierarquia pois essa era uma operação conjunta entre a FAADJ e a MADJ. Ao final de contas, o Capitão Sonoda, um dos integrante do esquadrão de patente mais alta, agia como facilitador.

 

“Deixe-me lhes apresentar o segundo tenente Asano Wataru. Ele foi transferido do Departamento do Interior para se juntar a nós. Sua especialidade é...”

 

Sonoda pausou a introdução de Asano para dar uma olhada nos papéis que tinha em mão.

 

“Aparentemente sua especialidade é pilotar. Que ironia para quem se juntará ao nosso esquadrão como um piloto de teste.”

Enquanto olhava para Asano, o qual continuava em sua pose militar, Sonoda continuou a sua apresentação.



 

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“Seja bem-vindo ao Esquadrão Conjunto de Avaliações de Teste. Segundo tenente Asano, apresente-se agora.”

 

Quando seu nome foi chamando, Asano deu um passo a frente e se apresentou.

 

“Segundo tenente Asano Wataru, a partir de hoje farei parte do Esquadrão Conjunto de Avaliações de Teste. Eu não tenho nenhum hobby ou interesse em particular. Prazer em conhecer todos.”

 

Sua habilidade é pilotar e não tem nunhum hobby. Ha! Quer dizer que pilotar é tudo que esse cara pensa?

 

Nagase viu Ose zombando de Asano, mas ela estava pensando em algo diferente.

 

O Departamento do Interior do ministério da dafesa estava cheio de burocratas civis cuja função principal era ajudar o ministério da defesa com a papelada. Asano teve um carreira curta como piloto e ele foi transferido para o Departamento do Interior após pilotar o F-15 em Komatsu. Não importava qual o ponto de vista, ele não tinha as qualificações necessárias para ser um piloto de teste. A Nagase levantou sua mão com essa ideia em mente.

 

“O que você fazia no Departamento do Interior?”

 

“Eu coordenava o Departamento do Interior com algumas editoras civis para a criação de uma revista de relações públicas para as Forças de Auto-Defesa do Japão.”

 

Nagase teve a leve impressão que Asano já esperava essa pergunta. Ela percebeu isso da maneira como ele respondeu a pergunta.

“Ok, legal. Caso você tenha alguma pergunta estou aqui para ajudá-lo.”



 

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​Ose ficou com um sorriso amargo em seu rosto devido ao comentário paternalista que Nagase fez a Asano já que ele era muito mais velho que ela.

 

Nagase era um pródigio com talentos extraordinários em pilotagem e era também muito jovem. Tanto Sonoda e Ose a admiravam bastante devido as suas habilidades como piloto. Ela era uma piloto valiosa para a Forças de Auto-Defesa do Japão pois ela podia pilotar tanto caças quanto helicópteros. Em contrapartida, nem alguém com habilidades semelhantes as da Nagase poderia juntar-se ao Esquadrão Conjunto de Avaliações de Teste caso não soubesse pilotar helicópteros. Dentre as razões temos a curta carreira como piloto e a idade. Mas Asano era um novato comparado à Nagase - mesmo que somente por 3 meses - e ele também teve uma pausa em sua carreira quando parou de voar ao trabalhar para o Departamento do Interior.

 

Não fazia sentido ter alguém como Asano, o qual teve uma carreira curta, juntar-se à equipe como piloto de teste do ASF-X. Parecia que Nagase queria desmerecer Asano por esta razão. Apesar de Asano ser muito mais velho que Nagase, ele ainda era considerado jovem na comunidade de pilotos de caça. Não havia dúvida que Asano tinha algo excepcional para ter sido selecionado para a equipe. Talvez ele era um outro prodígio como a Nagase. Houve um tempo em que Ose tinha um certo orgulho de suas habilidades também. Agora ele se achava apenas um veterano de idade que continuava em serviço graças à experiência que ele acumulou ao longo dos anos. Ele se sentia desta maneira ainda mais após conhecer a Nagase. Ele se sentia já por fora, pensando que mais um jovem piloto prodígio havia entrado na equipe. Desta vez, Ose levantou sua mão para fazer uma pergunta a Sonoda.



 

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“Quando o segundo tenente Asano vai pilotar?”

 

“O mais rápido possível. Assim que a manutenção do Zero Um acabar, Asano será o primeiro a pilotar.”

 

Nagase se chocou ao ouvir isso.

 

“O ASF-X é um caça especial que é muito diferente de outras aeronaves. Não seria melhor ele nos observar primeiro?”

 

“Isso não será necessário.”

 

Mishima entrou na sala antes que alguém tivesse percebido. Ele continuou o que estava dizendo enquanto gesticulava com sua mão para a equipe não se levantar em posição de sentido.

 

“O segundo tenente Asano já completou o treino com simulador na base de Nyutabaru. Eu tomei minha decisão ao ver os resultados dele em sua pilotagem com o T-4 e o F-15 no simulador. Eu gostaria que o Asano pilotasse o ASF-X o mais rápido possível.”

Nagase e os outros pilotos de teste haviam feito o treino com simulador mas ele não era muito útil. A simulação era feita com um modelo do F-3, então muito do treino era irrelevante para a pilotagem do ASF-X. Porém os pilotos de teste não podiam reclamar da decisão do Mishima. Nagase estav irritada, mas aí Ose sussurou para ela.


 

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“Bem, só aqueles com talentos sobrevivem no mundo dos pilotos. Que tal vermos o quão competente esse cara é primeiro?”​

 

Asano teve seu voo marcado três dias depois da inspeção de manutenção ter identificado a causa dos problemas e os reparos feitos.

 

“Tem certeza que você vai se dar bem?”

 

No pátio de aeronaves, Nagase pergountou a Asano enquanto ele fazia a checagem externa do Zero Um. A última vez que ela tinha visto ele pilotar era quando ambos estavam nos Golden Eagles e o que ele tinha feito após sua saída do esquadrão era totalmente irrelevante ao que ele faria agora. Por isso Nagase não tinha certeza de sua competência.

 

“Obrigado, mas não se preocupe. Eu li o relatório de manutenção do ASF-X e tenho confiança absoluta que o Zero Um não terá problema nenhum.”

 

“De qualquer maneira, eu cuidarei bem do Zero Um.”

 

O problema é você, não a aeronave! Imaginando seu subconsiente rolar seus olhos, Nagase foi em direção ao T-4.

 

O voo de hoje tinha dois objetivos: Introduzir o Zero Um ao Asano e testar a aeronave após seus reparos. O T-4 que Nagase pilotaria tinha a função de monitorar o voo teste enquanto Ose e Sonoda observavam o teste no centro de controle.

Nagase observava Asano no cockpit do Zero Um ao olhar pelo retrovisor.

 

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​Asano se mantinha distante de todos.

 

Até durante a festa de boas-vindas planejada pela equipe de manutenção, Asano não coversava ativamente com ninguém, só sorria e falava quando absolumante necessário.

 

Nagase odiava a maneira como ele evitava socializar com os outros na festa. Ele não falou com ninguém. Tudo o que fazia era fingir ter conversas. Talvez ele achava que não precisava falar com ninguém. Asano desde o início sabia o suficiente sobre a operação do ASF, na verdade ele a conhecia muito bem. Por isso não havia muito o que Nagase ou os outros pilotos pudessem lhe ensinar. A autorização de decolagem foi dada pela torre de controle e Nagase iniciou sua decolagem. Nagase era a primeira a decolar. Geralmente os voos de testes envolviam mais de uma aeronave de observação acompanhando o ASF-X, mas Nagase era a única a acompanhar o protótipo pois Asano só iria fazer algumas manobras básicas. Após Nagase, chegou a hora de Asano decolar.

 

“Asuta, você está autorizado a decolar.”

 

A torre chamou o codinome de Asano.

“Entendido. Asuta pronto e decolando.”


 

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​Após a autorização de voo ser dada pela torre de controle, Asano deu início a sua decolagem. Nagase observava sua decolagem do ar. A decolagem foi impecável mas isso por si só não era indicação alguma de habilidade. Isso só provava que Asano não era um novato. O sistema de controle de voo do ASF-X havia sido programado para ajudar o piloto durante a maior parte da decolagem e do pouso, então não fazia muita differença quem estava sentado no cockpit. Após decolar, o Zero Um deu duas voltas sobre a base, iniciou sua aproximação e pousou.

 

“Asuta, algum problema com a decolagem ou com o pouso?”

 

Mishima perguntou a partir da torre de controle.

 

“Nenhum problema com a decolagem ou o pouso. Requisitando teste com a manete.”

 

O Zero Um decolou novamente quando sua autorização foi concedida pela torre após ele taxiar para o início da pista. Desta vez, o Zero Um repetiu sua subida e descida, circulou ao redor da base, e pousou pela segunda vez. O teste de verdade estava prestes a começar quando ele decolasse pela terceira vez.

 

Após a decolagem, o Zero Um foi em direção ao leste para o espaço aéreo designado para voos teste. Neste terceiro teste, Asano devia testar a manobrabilidade do Zero Um, mas ele estava restrito à certas manobras - assim como patinadores de gelo escolhem suas piruetas antes do show. E como esse era o primeiro voo de tesde do Asano, ele estava limitado a fazer apenas as manobras que Nagase e os outros pilotos de tesde já haviam feito.


 

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​Asano acelerou o Zero Um para ganhar altitude. O T-4 também era uma aeronave superssônica com razão de subida excelente, então Nagase foi capaz de seguir Asano sem muita dificuldade. Em pouco tempo Asano alcançou os 6.000 metros.

 

“Aqui é Asuta. Vou fazer um barrol roll para a esquerda.”

 

“Edge, vou posicionar o T-4 à frente e à esquerda de Asuta.”

Asano rolou o Zero Um para a esquerda enquanto puxava o nariz da aeronave para cima. O barrel roll é uma manobra onde a aeronave completa uma rotação tanto no eixo longitudinal quanto no vertical enquanto segue seu rumo. Em síntese, a manobra não era muito complicada mas a aeronave poderia perder energia e velocidade se o piloto perdesse o controle da aeronave. Asano fez o barrel roll três vezes rolando o Zero Um para a esquerda. Daí ele fez outros três barrel rolls para a direita. Era como se fosse uma cena de perseguição automobilística num filme onde o carro rolaria no ar e pousaria na faixa ao lado para apenas continuar em seu caminho como se nada tivesse acontecido. Era como se o céu tivesse um piso invisível justamente onde Asano voava pois isso justificaria sua pilotagem excelente.



 

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​Nagase nem podia acreditar no que via com seus próprios olhos. Apesar do ASF-X ser assistido pelo sistema de piloto automático, a pilotagem de Asano era extraordinária, a competência do piloto era evidente diante da performance da aeronave numa manobra como essa. Julgar a qualidade do piloto era possível independentemente da dificuldade da manobra feita.

 

Asano continuou o teste de voo ao fazer algumas outras manóbras básicas incluindo o Split S, o Chendelle e outras. Ele cumpria cada manobra precisamente. Acima de tudo, ele também as fazia rapidamente. Não havia nenhum movimento desnecessário em sua pilotagem. Na verdade, era difícil de acreditar que essa era sua primeira vez ao pilotar o ASF-X pois sua pilotagem era muito suave. A expectativa de Nagase é que Asano seria um piloto medíocre - mas ele pilotava muito melhor do que ela tinha imaginado.

 

No debrifim, as imagens do teste de voo de Asano tiradas pelo T-4 foram

mostradas aos pilotos de teste. O voo de teste de Asano continuava a ser incrível mesmo em vídeo. Mishima apenas descreveu o funcionamento das manobras e mantevesse quieto, ao contrário de seu comportamento padrão com seu criticísmo construtivo que era duro, mas também era justo.

 

Nagase parabenizou Asano.


 

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​“Nada mal! Asano, com certeza essa não parecia sua primeira vez pilotando o ASF-X!”

 

“É isso mesmo, Asano. Você pode nos explicar como conseguiu se adaptar ao ASF-X quando sua única experiência foi com o simulador?”

 

Asano respondeu a pergunta de Mishima.

 

“Eu tentei me acostumar com a manete do simulador de treinamento. Daí li relatórios sobre as diferenças entre o simulador do ASF-X de verdade e assisti vídeos de voos de testes feitos por outros pilotos.”

 

Mais ou menos o que ele disse em sua explicação: eu observei e aprendi. Mas não é assim que a pilotagem de aeronaves -ou qualquer outra técnica de complexibilidade semelhante- funcionava. Por que alguém passaria anos e anos para afiar suas habilidades se funcionasse assim? Nagase ficou perplexa quando ouviu a explicação de Asano.

 

“O que você acha do ASF-X agora após ter pilotado ele em comparação com a simulação?”

 

“Ele reagia muito mais rapidamente do que imaginava. Fui capaz de executar as manobras assim como tinha em mente. E o sistema de controle fly-by-light e o piloto automático em geral eram muito mais avançados do que havia imaginado. Na verdade, era tão avançado que tive dificuldade em sentir o limite da aeronave ou me acostumar com as características da aeronave.”

 

Mishima acenou com a cabeça.

 

“Vamos colocar o Asano para testar as limitações do ASF-X num futuro breve. O Zero Um não foi feito com o feedback interativo das condições de voo para o piloto em mente. Eu vou falar com a Taiga Indústrias Pesadas para ver o que podemos fazer sobre isso. Dependendo do resultado desta conversa, as modificações poderiam ainda ser feitas no Zero Um.”



 

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Mishima olhou para a Nagase e para os outros pilotos na expectativa que eles tivessem algo a mencionar.

 

“Como disse anteriormente, amanhã teremos uma inspeção minuciosa de manutenção na aeronave. Por isso, todos os pilotos de teste terão o dia de folga. Ose e Sonoda pilotarão no dia depois de amanhã, e Nagase vai observar ao pilotar o T-4. Além disso, dois T-4 da base de Misawa se juntarão a nós.”

 

Asano levantou sua mão.

 

“Há alguma possibilidade em que eu pilotarei?”

“Não no dia depois de amanhã. Eu preciso de um relatório do voo de teste de você, então você vai para a torre de controle. Caso precisemos mudar o piloto de teste, Nagase pilotará o ASF-X e o pessoal de Misawa fará o voo de observação. Venha falar comigo caso tenha alguma pergunta sobre o relatório. Caso vocês não tenham nenhuma pergunta o debrifim acaba aqui. Dispensados.”

 

Ose virou-se para o resto dos outros pilotos de teste.

 

“Alguém tá a fim de ir para o karaoke?”

 

“Vamos.”



 

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Era difícil ver pilotos que bebiam muito hoje em dia devido ao sistema de controle rígido contra o álcool.

 

Os pilotos eram proibídos de beber álcool nas 24 horas antes de seus voos e o teste de intoxicação fazia parte do procedimento de checagem. Hoje em dia, pilotar era proibido caso a concentração de álcool excedesse o limite mesmo se o piloto tivesse bebido antes das 24 horas antecedentes ao voo e medidas disciplinares haviam sido tomadas. Devido a isso, o karaoke era o lugar para os pilotos se descontrairem numa ocasião como essa.

 

“Asano, por que você não vem conosco? Vamos ver se você é tão bom cantando do mesmo jeito que você pilota.”

 

Asano gesticulou com sua mão.

 

“Obrigado, mas não posso.”

 

“Ah beleza, vejo você depois então.”

 

Nagase franziu a teste nas costas de Asano ao vê-lo sair sozinho para seu quarto.

 

Sonoda viu seu rosto e segurou seu ombro.

 

“Talvez ele ainda é tímido para cantar conosco. Não se preocupe com isso.”

Mas o Asano nunca se juntou a eles no karaoke mesmo após todo esse tempo.

 

7 dias passaram desde o dia em que Asano pilotou o ASF-X pela primeira vez. E o Asano tinha batido o recorde de Nagase ao estabelecar um novo recorde de subida aos 9.000 metros.​



 

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Porém o recorde não era oficial. O recorde era usado exclusivamente dentro do Esquadrão Conjunto de Avaliações de Teste e era medido da seguinte forma - você contava quanto tempo demorava para alcançar os 9.000 metros a partir dos 3.000 metros. Isso fazia parte da checagem após cada manutenção, mas havia a tendência dos pilotos em competir pelo recorde. Era óbvio que ninguém ficava feliz se seu recorde tivesse sido batido. Nagase rangeu seus dentes quando viu Asano bater seu recorde na torre de controle. O fato de Asano ter batido seu recorde não era a única razão da Nagase estar furiosa. A Nagase tinha estabelecido seu recorde antes que o Zero Um fosse instalado com radar e outras partes. Alguns haviam batido seu recorde anteriormente e vice-versa. Mas ao precensiar Asano bater seu recorde quando ele estava numa desvantagem - pois quando Nagase havia estabelecido seu recorde o Zero Um estava bem mais leve - isso era o que a enfuriava tanto.

 

“Subida excelente - relamente pilotando o ASF-X ao seu limite.”

Toda palavra de elogio vindo de Mishima estilhaçava o orgulho da Nagase. A manobra havia sido impecável, isso sem dúvida. Primeiro, Asano acelerou para Mach 1.4 em um voo horizontal para acumular velocidade para a subida. Daí ele apontou o nariz para cima usando sua energia cinética, fez uma volta de 90 graus com a aeronave apontando para cima. Daí ele apontou o nariz para baixo 90 graus uma vez que a aeronave alcançou a altitude desejada e continuou com o voo horizontal para acelerar para uma velocidade transsônica.



 

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​Asano chegou aos 9.000 metros de altitude repetindo esse processo 3 vezes. Ele minimizou a perda de energia cinética com a subida zoom. As aeroves são feitas com um design onde a eficiência aumenta quando o nariz aponta para cima. Por isso, a maneira mais eficiente de pilotar é apontar o nariz para cima ao invés de para baixo.

 

Ao apontar o nariz para cime em alta velocidade repetidamente, a aeronave tinha a tendência de fazer um loop vertical. Para contrabalancear isto, fazia-se uma manobra Immelmann, um meio loop no ápice da trajetória de voo, pois essa era uma maneira mais eficiente de voltar ao voo horizontal. Mas isso exigia muita precisão e técnica. Para começar, a manobra Immelmann muitas vezes resultava no estol da aeronave, ela era difícil de executar mesmo quando havia um excesso de energia. Foi nesse momento que Nagase percebeu que Asano tinha controle absoluto do Zero Um, algo que ela não tinha.

 

Por mais irritante que fosse, Nagase não conseguia realizar uma subida como Asano havia feito - pelo menos não neste nível de eficiência. Ela sabia disso pois ela tinha pilotado o Zero Um muito mais que Asano. Ao estabelecer um novo recorde de tempo, Asano claramente a superou.

 

Um dia eu vou superá-lo. Nagase jurou a si mesma que ela iria bater o recorde dele um dia.



 

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No entanto, Asano continuou a bater o seu próprio recorde. E ele realizou todas as manobras que o ASF-X poderia fazer e até fez algumas manobras acrobáticas. Nagase ficava cada vez mais impaciente. Ela sentiu como se tivesse um nó se formando em seu peito, um que ela não conseguia se livrar.

 

"Major, olhe só como a Nagase está estressada."

 

"Desafios são bons, mas talvez esse tenha sido até demais para ela."

 

Sonoda sorriu amargamente monitorando o voo de Nagase enquanto sentava-se ao lado de Mishima.

Ele poderia facilmente perceber pelo vídeo na tela que Nagase estava tentando desesperadamente. Nagase estava tentando fazer a manobra que Asano fez anteriormente, o Kulbit. Ao realizar um Kulbit, a aeronave girava-se para trás sem fazer um loop, mantendo a altitude e aumentando o ângulo de arfagem. O Kulbit estava intimamente relacionado com a manobra Cobra, uma manobra na qual o avião levantava o seu nariz momentaneamente para a posição vertical e um pouco além, antes do piloto abaixar seu nariz para retornar a aeronave ao voo normal. Os pilotos precisavam estar atentos ao estol prolongado ao fazer o Cobra e o Kulbit. O Kulbit é caracterizado como uma manobra pós-estol e demonstra a capacidade de usar o controle de arfagem fora do voo normal. Em outras palavras, demonstra a capacidade de manter o controle da aeronave mesmo se ela for atingida.

 

 

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É difícil dizer se essas manobras seriam úteis em uma situação de combate, mas, na maioria das vezes, os pilotos mais habilidosos eram capazes de realizar essas manobras. Nagase foi ordenada a executar dois Cobras e dois Kulbits. Mas no segundo Kulbit, ela acabou fazendo duas rotações completas em vez de uma só.

 

"Edge, o que diabos foi isso?"

 

“Aqui é Edge. Eu superei o ângulo da manobra por um pequeno engano.

 

"NÃO SEJA RIDÍCULA!"

 

Era muito óbvio que ela tinha feito isso de propósito.

Há uma queda acentuada na potência do motor ao executar o Kulbit porque o nariz da aeronave não fica alinhado com a direção que a aeronave se move, o que poderia causar uma falha no motor. E a aeronave poderia cair caso estolasse. Como há uma queda na potência após executar o primeiro Kulbit, o segundo Kulbit se torna muito mais difícil de ser executado. A execução de dois Kulbits seguidos é chamada de Kulbit duplo, que era uma manobra completamente diferente.



 

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Mishima suspirou e agarrou seu assento depois de repreender Nagase. Mas então, ele aparentava estar levemente contente com um sorriso no rosto quando se sentou.

 

"Apesar de não ter mencionado do debriefing de ontem, Asano estava realizando o Cobra e o Kulbit usando apenas as asas de angulação variável. A Nagase iria explodir de ódio se eu dissesse a ela que nem é tão difícil de fazer um Kulbit se ela usar o empuxo vetorial.”

 

"É mesmo, eu não posso imaginar a quão zangada ela ficaria."

Porém essa ainda era uma manobra difícil de ser executada. Mas o empuxo vetorial a tornaria relativamente mais fácil. Nagase estava estressada por ter sido superada por Asano. Mas ela ainda era um jovem prodígio com muito potencial aos olhos de muitos na equipe. Era isso que Sonoda achava. Ele estaria mentindo se dissesse que não tinha ciúmes de seus talentos, mas ele a via mais como uma júnior que precisava de sua orientação, ao invés de uma rival com quem ele precisava competir. Sonoda achou engraçado o quão desesperadamente Nagase estava tentando ser melhor que Asano. Certamente essa era uma tarefa em que ninguém da equipe poderia ajudar Nagase. No fim das contas, Sonoda considerava que Asano era um bom complemento para a equipe.



 

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Mishima carregava um celular particular com ele. Havia dois tipos de chamadas que ele recebia neste telefone: as chamadas de emergência, as quais ele precisava responder, e outras chamadas as quais ele podia ignorar. Apesar dele fornecer seu número para a sua equipe como um contato de emergência, ele raramente recebia telefonemas deles. E ele não dava seu número para mais ninguém para que ele não fosse incomodado. Mas a ligação que ele recebia agora não era exatamente uma ligação de emergência, porém Mishima sabia que seria melhor atender a essa ligação.

 

"Sim, Major General."

 

"Como está o Asano?"

 

“Ele poderia se socializar melhor com outros membros da equipe, mas no geral ele está bem. Ainda é muito cedo para chegar a uma conclusão, ele é muito compatível com o ASF-X. Talvez ele é até mais talentoso do que a Nagase.

 

“Por favor, cuide de seus aspectos sociais também. Asano é um piloto talentoso, mas seria uma pena se ele parasse por aí quando ele tem potencial para ser muito mais que isso.”

 

Não havia necessidade de dizer isso a Mishima, Asano foi um dos alunos instruídos pelo próprio Mishima.

 

"Concordo plenamente."

"Vou deixar este assunto com você. Mantenha-me informado"



 

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​Sua cabeça estava girando e seus ombros estavam pesados por conta de seu equipamento completo. Asano nunca havia percebido que seu coração batendo poderia ser tão alto nem sua respiração tão fraca. O capacete era completamente inútil. A luz do sol estava cegando seus olhos, apesar dos óculos de proteção. Seus olhos doíam por causa do sol e gotículas de suor entravam em seus olhos. Ele não conseguia enxugar os olhos porque suas mãos estavam ocupadas.

 

Só um pouco mais, não desista. Só mais um pouquinho.

 

Quando ele chegou à entrada da base, ouviu esta voz impiedosa em seu fone de ouvido.

 

“Não, Asano! Você não vai conseguir!

 

Não pode ser.

 

“Nossa base será bombardeada a qualquer momento! Encontre um lugar para

se proteger. Não há mais nada que possamos fazer!

 

Ele se agarrou ao muro da base que mais parecia como um penhasco. Então ele o escalou desesperadamente e pulou em direção a parte de trás da base.

 

Quando Asano abriu seus olhos, tudo estava escuro como breu. Ao contrário do que ele podia ver em seu sonho.

Seu corpo estava coberto de suor - exatamente como naquele momento.

 

 

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O sonho levou Asano de volta àquele momento e Asano pode lembrar de cada pequeno detalhe. Era impossível esquecer. Quantas vezes ele teve esse pesadelo? Asano riu de si mesmo com auto-aversão imaginando como ele conseguia continuar a ser um piloto quando ele está quebrado assim - acordando no meio da noite.

 

Então ele pensou que era o oposto. Como ela havia gastado toda sua energia com o seu treinamento e seus voos, ele era capaz de dormir à noite apesar de ter o pesadelo. Ele não estava cansado pois o voo de teste foi cancelado.

 

Depois de confirmar duas vezes que tinha mais de 30 horas antes de seu próximo voo, Asano pegou uma garrafa de gim da prateleira e começou a beber da garrafa. Ele não conseguia dormir sóbrio, mas ele precisava dormir.

 

Eu estou vivo, portanto durmo. Eu tenho pesadelos porque estou vivo. Eu sobrevivi e fui salvo.

 

Errado! - Ele pensou para si mesmo.

 

Eu não fui salvo. Ele colocou as duas mãos em seu rosto.

Eu não posso mais voar.

 ​Capítulo 2 

Q-X

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O alarme que indicava a detecção por radar inimigo continuava a soar. Seu ala desapareceu para algum lugar depois da luta anterior.

 

Sendo perseguido, o piloto no F-2A desesperadamente girou o leme totalmente para a direita e levantou o nariz da aeronave. A asa direita do F-2 perdeu a sustentação, e o avião se lançou à direita. Ele rapidamente virou o leme na direção oposta, mas prestes a entrar em parafuso, a aeronave girou uma vez e meia. Ele estava na iminência de estolar.

 

Ele continuou a desviar até chegar perto de bater contra o chão, e o alarme finalmente cessou.

 

Para recuperar-se do estol e separar-se do agressor, ele virou à direita e mergulhou.

 

Enquanto mergulhava com sua inércia imensa, o alarme subitamente disparou de novo. Um rápido olhar no espelho retrovisor revelou que a silhueta da aeronave inimiga havia se aproximado.

 

Como foi que ele me perseguiu dentro do mergulho espiral?

 

Enquanto permanecesse numa curva acentuada, não seria atacado por mísseis, mas se continuasse fazendo isso, iria ao chão.

 

“Pimp, eu não consigo me livrar dele, me ajuda!” 

 

“Flatterer, onde está o inimigo? Eu não consigo vê-lo!



 

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O F-2 parou de virar para mergulhar e ganhar velocidade, e logo depois começou a subir. Durante todo esse tempo, o alarme continuava a soar, e assim que ele começou a subir, o som do alarme mudou para indicar que ele estava travado na mira.

 

“Já era… Estou acabado!”

 

O Tenente-Coronel Shimon, que monitorava as transmissões, balançou a cabeça.

 

“...Como que isso pode acontecer!?”

 

“O segundo caça foi derrubado. O placar atual é de 14 para 2.”

 

Para Shimon, a voz do operador parecia vir de uma grande distância.

 

Apoiado na parede da sala de controle e assistindo ao pânico do Tenente-Coronel, um homem de barba e óculos escuros se apresentou. Ele chamou Shimon, rindo levemente.

 

“Uma hora passou. Já vimos as capacidades, e embora seja mais cedo do que o planejado, o senhor preferiria jogar a toalha agora?”

 

Shimon virou-se e encarou o homem com uma expressão furiosa.

 

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O rumor se espalhou rápido, e no Esquadrão Conjunto de Avaliações de Teste, Nagase ouviu a respeito.

 

“Velho, isso é verdade?”

 

“Não sei dos detalhes. Sonoda estava falando a respeito. Eu estava agindo como se estivesse ocupado. Imaginei que se alguém soubesse algo, seria você, então te chamei, Segunda-Tenente Nagase.”



 

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Nagase e Oose se entreolharam. Foi a primeira vez que escutavam a respeito daquilo.

 

O velho trabalhando nos refeitórios franziu a testa. Membros do pelotão de suprimentos trabalhando nos refeitórios também eram membros orgulhosos das forças de defesa. Chamar a Nagase de “Segunda-Tenente” era uma forma indireta de protestar contra ela que o chamava de “Velho”, mas como ela estava preocupada com as notícias, nem notou.

 

Depois de comer, os dois encontraram Sonoda na sala de descanso para perguntar sobre a validez do rumor.

 

“O Q-X ganhou do F-2?”

 

Sonoda fez que sim com a cabeça.

 

“Foi uma razão de vitórias de 7 para 1.”

 

“Tá de brincadeira…”

 

Nagase estava chocada.

 

O Q-X é uma aeronave não tripulada sendo desenvolvida pela Ala de Desenvolvimento Aéreo e Testes da Força Aérea de Autodefesa Japonesa (JASDF). O seu papel básico é reconhecimento, mas ele possui a capacidade de ser armado e está sendo desenvolvido como uma aeronave multitarefa capaz de executar ataques. Embora seja não-tripulado, possui um motor turbojato capaz de voo supersônico e um radar de arranjo de fases.

 

Considerações para equipagem de mísseis ar-ar estavam presentes desde os primeiros estágios de desenvolvimento, mas num teste, perdeu de forma humilhante para os caças F-2 em duelos de treino no ano anterior.



 

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Desde que os três protótipos de segunda geração que foram construídos tiveram testes em voo favoráveis, a possibilidade de carregar mísseis antiaéreos foi testada em um programa de Teste de Combate Aéreo Dissimilar (DACT) contra o caça de suporte F-2. Os resultados foram uma derrota total para o Q-X, e mesmo mudando-se as condições e os parâmetros de avaliação, o Q-X era aniquilado rapidamente, incapaz de derrubar um único F-2.

 

Mesmo com mísseis e radar, o aparelho respondia de forma letárgica, e com um campo de visão limitado por sua natureza de operação remota, eles nem faziam ameaça alguma para os caças pilotados.

 

Porém, não conseguir acertar nada se tornou um grande problema. O aparelho possuía um certo nível de capacidade de manobras em combate, mas os desenvolvedores não seriam perdoados por fazer um avião que só conseguia desviar quando perseguido, como era o caso até então.

 

Isso foi há um ano atrás.

 

Depois do fiasco, o Q-X passou por revisões no desenho estrutural e nos sistemas de controle remoto, e os protótipos de terceira geração foram produzidos.

 

Capaz de voo supersônico e com seu radar de arranjo de fases, o Q-X parecia ter especificações luxuosas, mas era diferente dos UAVs* americanos por ter sido desenhado como uma aeronave barata e descartável desde o começo. A ênfase foi sempre em manter os custos de compra e produção baixos, e um dos objetivos do programa era de que o Q-X pudesse ser produzido em massa num curto espaço de tempo, a custos baixos.

 

*UAV - Unmanned Air Vehicle (Veículo Aéreo Não-Tripulado)

 

Era por esse motivo que os protótipos eram construídos sem muitas considerações. Na verdade, os protótipos eram baratos e o tempo de produção deles também era curto.

 

Consolidar grandes números a preços baixos, e se fossem derrubados, suplementar as baixas produzindo mais. Essa era a mentalidade do programa Q-X.

 

Imaginava-se que se o Q-X fosse interceptado por um caça, seria um resultado positivo contanto que um deles sobrevivesse e completasse a missão. Os mísseis antiaéreos eram apenas para aumentar as chances de sucesso nas missões.



 

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Ninguém esperava que ele fosse ganhar do caríssimo F-2.

 

“Com a ASF-X, provavelmente seria bem mais que 7 pra 1, mas com drones…”

 

Nagase inclinou a cabeça, pensativa.

 

“Vai que o Q-X tem alguma carta na manga?”

 

Ainda assim, 7 a 1 dói. Não tem desculpa pra isso.”

 

Oose não parecia querer aceitar os resultados, mas continuou a explicar.

 

“Por natureza, o Q-X é altamente manobrável. É um CCV* com ailerons especiais, e já que é um drone, dá pra fazer coisas com forças G ridículas sem problema. Também é pequeno e difícil de detectar. Se olharmos apenas para o seu desempenho como um avião, não é surpreendente que seja superior ao F-2, que é de uma geração diferente.”

 

*CCV - Control Configured Vehicle (veículo configurado de acordo com o controle)

 

“Mas 7 a 1 é muito.”

 

“Aí que tá. Não se tem sucesso desse jeito nem com ataques surpresas nem com o disparo de mísseis pra lá e pra cá. Agora, que essa coisa ganha do F-2 em um combate aéreo é algo que eu não posso aceitar. O Japão planeja exportar os Q-X para os Estados Unidos e espera que eles sejam usados no mundo todo. A distância até a base não importa, já que os drones serão controlados por uma rede de satélites, graças aos microatrasos nessa rede, o combate aéreo já se torna impossível.”


 

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Mesmo na distância mais curta, um satélite em órbita fica a mais ou menos 200 quilômetros de altura em relação ao solo, e no mínimo haveriam alguns milissegundos de atraso nos controles que não dá pra eliminar. Os sistemas do Q-X usam a rede lançada por um novo satélite de GPS orbitando a 20,000 quilômetros, então o atraso entre um movimento nos controles e a resposta da aeronave ia ser de alguns décimos de segundo.

 

O Q-X não foi feito pra ser usado em combates onde a diferença entre ganhar e perder é apenas um piscar de olhos.

 

“Se é pra acreditar, tem que melhorar as capacidades de evasão a radar. Queria ver se o radar do ASF-X detecta um desses.”

 

“Bem, pra gente tanto faz. Já que está sendo desenvolvido ao mesmo tempo que o ASF, pode parecer um projeto rival, mas o propósito é totalmente diferente. Sem relevância para os nossos esforços de desenvolvimento.”

 

As informações do Oose estavam corretas, mas suas previsões eram totalmente enganadas.

 

Substituindo os sextantes usados por navios no mundo todo, o GPS tinha sido originalmente desenvolvido e implementado para uso militar.

 

Mesmo depois de aprovado o seu uso por civis e no público, houve um tempo em que foi usada a disponibilidade seletiva, intencionalmente diminuindo a precisão. O GPS era eficaz demais, e precisava-se tomar cuidado para casos de seu uso por terroristas ou facções inimigas.

 

Por outro lado, usar o GPS significava vigilância via GPS, e aqueles que querem evitar isso estão desenvolvendo seus próprios satélites de posicionamento, tais como o “Galileo” da União Europeia, e o “GLONASS” da Rússia.



 

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Uma importante parte dos satélites de GPS é que são necessários múltiplos satélites para cobrir toda a Terra o tempo todo. Isso se deve ao fato de que são necessários um mínimo de quatro satélites para o posicionamento. Em geral, esses satélites são arranjados de forma que este requerimento seja cumprido em todas as regiões do planeta. Essa coleção de satélites GPS que cobre toda a Terra representa a rede de satélites.

 

Para utilizar esse alcance global, os Estados Unidos adicionaram a capacidade de um sistema de comunicação militar nos seus novos satélites GPS. Como parte de um esforço internacional  secreto, a JASDF recebeu permissão para usar os satélites e suas capacidades de transmissão para o programa Q-X. Os EUA oferecem os satélites, a JASDF desenvolve tecnologias práticas - uma colaboração tecnológica militar mútua. Tecnologias usadas no programa Q-X seriam oferecidas aos EUA, e ficou decidido que a depender de seu desempenho, o Q-X seria comprado e usado nas forças armadas americanas.

 

Primeiramente, com a liderança da JASDF, uma central de transmissão foi criada na Estação Espacial Internacional para focar na direção de canais de comunicação ideais dos satélites GPS em constante movimento. Devido a isso, a rede de satélites em órbita média foi otimizada, e atrasos devidos à distância ou à mudança de um satélite para outro eram suprimidos em um tempo fixo.

 

Porém, isso não era o suficiente. À medida que o Q-X ganhava manobrabilidade cada vez mais alta, os atrasos começaram a se tornar grandes problemas.



 

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De certa forma, o Q-X como uma aeronave tinha desempenho bom demais.

 

Tendo sido desenhado como um CCV, o Q-X possui mobilidade superior aos caças atuais, o que tornava os planos originais de operá-los remotamente pouco práticos. Mesmo sem atrasos nos controles, fazer manobras complicadas por controle remoto era difícil.

 

A Ala de Desenvolvimento Aéreo e Testes aumentou o desempenho do computador de bordo do Q-X e tentou cobrir suas fraquezas melhorando o sistema de controle autônomo. Ainda assim, haviam limites para o software de controle, e mesmo usando computadores modernos de alta performance, o controle autônomo do Q-X não era satisfatório.

 

Além disso, melhorar os controles autônomos significava que a aeronave não respondia de forma precisa aos controles do operador. Considerações foram feitas em torno de eliminar o uso dos satélites GPS para aumentar a responsividade, mas isto era claramente pôr o carro na frente dos bois.

 

As melhorias ao controle autônomo do Q-X estavam no seu limite. As capacidades da rede também estavam no seu limite. Dessa forma, melhorar o controle dos pilotos era a única opção.

 

A Ala de Desenvolvimento Aéreo e Testes havia encontrado uma solução.

 

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O responsável pelo desenvolvimento da ASF-X era o Major General Sato. Formalmente, havia uma ênfase em estar presente no programa de desenvolvimento em pessoa.



 

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Entretanto, o verdadeiro líder do programa ASF-X não era o Major General Sato.

 

Isso se deve ao fato de que, infelizmente, o dinheiro faz o mundo girar. Na verdade, um burocrata de nome Zaitsu, que supervisionava o orçamento, tinha mais controle sobre as decisões finais do que o major general. Acima dele, havia mais um burocrata - este que controlava o orçamento do país inteiro.

 

“Quero que o ASF-X seja testado num DACT.”

 

“...agora?”

 

“Sim. Quero que aconteça imediatamente.”

 

Esta não era a primeira vez que Zaitsu fazia um pedido excessivo e irracional, mas era pior do que nas vezes anteriores. De início, apenas uma aeronave ASF-X existia, que era uma plataforma de testes aerodinâmicos e não conseguiria tomar parte em DACT ou qualquer outro tipo de exercício de combate. O ASF-X que estava em posse do Esquadrão Conjunto de Avaliações de Teste foi produzido exclusivamente para pesquisa, e não era um protótipo para o F-3, o verdadeiro ASF (Advanced Support Fighter*). Era uma aeronave de testes, imprópria para o combate.

 

*Advanced Support Fighter - caça de suporte avançado.

 

Porém, era bem sabido que Zaitsu não era o tipo de pessoa que escutaria qualquer coisa a respeito disso ser impossível. Ignorando estas preocupações, parecia que uma demonstração das capacidades de combate do ASF-X num treino de combate aéreo já havia sido aprovada, por pura conveniência política.

 

A primeira coisa que veio à cabeça foi o mesmo treino de combate ao qual o Q-X foi submetido. Se o Q-X fez, o ASF-X pode fazer também - essa era provavelmente a mentalidade por trás dessas intenções.



 

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Vamos ter que escolher o que dizer cuidadosamente e ganhar tempo de forma indireta. Sato e Zaitsu se conheciam há muito tempo, o que o havia acostumado a isso.

 

“O ASF-X não completou nenhum teste diretamente relacionado a situações de combate. Ainda por cima, só temos uma aeronave para testes, e há preocupações a respeito de colocá-la em risco numa situação de treino em combate. Caso ocorra alguma situação improvável e haja danos ao nosso avião, será um atraso enorme nos esforços de desenvolvimento.”

 

Zaitsu suspirou forte.

 

“Eu sei que a Zero Um já fez testes de disparo com armas. A propósito, não sei se você sabe, mas as Indústrias Pesadas Taiga vão lançar a Zero Dois já totalmente equipado em alguns dias, antes do previsto. Com dois protótipos, dá para formar um elemento e treinos de combate, e até mesmo simular uma batalha real. Não tem problema.”

 

Se o Zaitsu falou “não tem problema”, agora não tem volta.

 

Mas isso ainda era impossível.

 

O primeiro ASF-X, o Zero Um, está sendo usado para testar os efeitos, no voo e na detectabilidade, de instalar armamento sob as asas, abrir e fechar as baías de armas e lançar mísseis e bombas. Não é como um teste de armas normal. O Zero Um nem tem sistemas de controle de armas.



 

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Mesmo com o lançamento de uma aeronave totalmente equipada, ainda se trata de um protótipo. O equipamento que o avião carrega ainda é experimental e precisa ser testado. Conduzir um treino de combate do nada está fora de questão. Além disso, embora as duas se chamem ASF-X, o Zero Um é um modelo CTOL*,  enquanto o Zero Dois foi construído com capacidades STOVL*. Há várias diferenças entre os dois, e embora pareçam idênticos no papel e a olho nu, especialistas dizem que são completamente diferentes.

 

Naturalmente, formar um elemento com essas duas aeronaves não poderia ser recomendado.

 

“Podemos ter um pouco de tempo para testar o segundo avião brevemente? Também temos que treinar voo em formação.”

 

Zaitsu disse “Hmm” enquanto sua expressão sugeria que ele estava realmente pensando.

 

“Considerando que o Zero Dois têm capacidades STOVL, imagino que os pilotos vão precisar de treino… Tudo bem. Mas não espere nada mais do que um ou dois meses para isso. Eu tenho minha posição também, você sabe.

 

Ele conseguiu ao menos um mês de tempo, mas quando pensou como iria explicar esse plano louco para a equipe de desenvolvimento, sua cabeça ficou pesada.

 

O escritório do Major General Sato era no prédio central do Ministério da Defesa, na região de Ichigaya do bairro de Shinjuku em Tóquio. Ele raramente aparece em pessoa no Esquadrão Conjunto de Avaliações de Teste. Porém, neste caso, dar estas ordens sem se encontrar diretamente com o Major Mishima provavelmente não terminaria bem.

 

Sato parou Zaitsu, que se levantava.

 

“Espere um pouco. Me perdoe, mas há algo que preciso confirmar.”



 

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“E isso seria?”

 

“Diga-me. Quais serão os parceiros do Esquadrão Conjunto de Avaliações de Teste?”

 

Zaitsu finalmente percebeu que não o havia informado de seu oponente no treino de combate.

 

“A Ala de Desenvolvimento Aéreo e Testes. Nós faremos com que o ASF-X derrote o Q-X.”

 

“Vamos fazer isso envolvendo dois protótipos ainda em desenvolvimento?!”

 

“Exatamente.”

 

A expressão do Major General Sato mudou totalmente. Zaitsu hesitou. Ele nunca tinha visto Sato transtornado dessa forma.

 

“Tem algo de errado?”

 

“Tem tudo de errado. Se dois protótipos ainda sob desenvolvimento competem diretamente um contra o outro, isso quer dizer que existem circunstâncias quem significam ou a vida ou a morte de um dos programas, certo?”

 

“Você pensa rápido. É isso mesmo.”

 

A expressão do Major General Sato ficou ainda mais consternada.

 

“Você soube do DACT entre o Q-X e o F-2 que ocorreu há alguns dias? O Q-X ganhou de lavada. Isso é um problema enorme.”


 

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Sato não fez mais perguntas, então Zaitsu continuou.

 

“Pensa nisso. Isso é prova de que o Q-X pode ser usado como caça. Não tem como os outros caças não serem afetados.”

 

“Você não quer dizer que o ASF-X vai ser descartado e o Q-X pode ser adotado como o ASF, certo?”

 

Imaginando ter entendido o pensamento de Sato, Zaitsu começou a rir. Inicialmente, ele estava hesitante por não entender o motivo da ira de Sato. Zaitsu não compreendia o significado militar ou o sentimento de serviço e profissionalismo por trás de um caça de última geração. Incapaz de entender quaisquer valores que não os seus, Zaitsu imaginou que Sato tinha medo de perder sua posição.

 

“Não se preocupe, não é para tanto. O programa ASF-X é enorme. Nunca será cancelado.”

 

Para Zaitsu, o que importava não era o ASF-X, mas sim o ASF-X como um projeto. Mesmo que o avião fosse um lixo, ele não o abandonaria de forma alguma. Ele daria um propósito de existência para o lixo e manteria as coisas se movendo.



 

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“Mas olha, se o Q-X puder ser usado como caça de suporte, provavelmente haverão discussões a respeito de adotá-lo em alguns esquadrões. Aquela coisa é ridiculamente barata, e números enormes podem ser acumulados. Nenhuma morte por acidente. Quando alguém morre, é semente de problema. E nesse aspecto, isso com certeza afetará a procura pelo F-3. Numa indústria onde gente morre, 100 ou 200 não dá. Nós temos que provar que o ASF-X é muito, muito mais útil que o Q-X.”

 

“Mas isso é perigoso. Francamente, o ASF-X não está em condições de lutar. Lançar um avião incompleto só vai mostrar mais as capacidades do Q-X.”

 

Dessa vez, o tom de Zaitsu ficou mais duro.

 

“Essa desculpa não vai rolar. Isso é um desafio do projeto Q-X. Se você se recusar, sua honra será arruinada. Vença a qualquer custo.”

 

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Nivelando depois de um mergulho supersônico, Zero Um fez a transição para modo supercruise.*

 

*supercruise - cruzeiro supersônico sem a necessidade de pós-combustores

 

Do T-4, Sonoda viu Zero Um estender a distância num piscar de olhos. Nessa situação, não havia necessidade de um observador. Dentro da JASDF, o único avião capaz de seguir a ASF-X no supercruise era o F-15J.

 

As fotografias aéreas seriam continuadas pelos T-4s do Asano e do Oose, que estavam esperando mais à frente.


 

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Durante o cruzeiro de alta velocidade, as extremidades da asa principal se inclinam a 45°, substancialmente diminuindo a área da asa e reduzindo a resistência do ar. Ao fazer isso, a estabilidade em manobras puramente horizontais diminuía, o que era corrigido fazendo com que os estabilizadores traseiros mudassem seu ângulo de inclinação.

 

Os ângulos ideais para as extremidades das asas e os estabilizadores verticais eram determinadas por uma simulação computadorizada, mas a sua eficácia não poderia ser verdadeiramente definida a não ser que o avião voasse de verdade. Sempre aparecem problemas durante o vôo, e é para isso que o Esquadrão Conjunto de Avaliações de Teste existe.

 

Não há solução fácil, já que as asas principais e traseiras estão em constante movimento. Obviamente, as características de voo antes e depois da mudança dos ângulos das asas são bem diferentes. O ASF-X, dotado de um complexo sistema de asas de geometria variável, sempre sofre mudanças drásticas nas características de voo toda vez que as asas mudam de posição.

 

A depender das condições das asas de geometria variável, altitude e velocidade, os controles se sentem bastante diferentes… ou ao menos deviam.

 

Na verdade, os computadores corrigem tudo de forma gradual, e não importando de que forma se altere as configurações de asas e estabilizadores, não se percebe muito a diferença nos controles enquanto se manobra. Em termos extremos, pode-se dizer que o ASF-X muda de direção no nível exato de aplicação de movimento no manche, e muda de velocidade no nível exato de aplicação do acelerador.

 

Geralmente, é mais fácil lidar com um avião que mantém suas características de controle à medida que as condições de voo mudam. Por isso, os aviões possuíam formas diferentes de conseguir isto no passado.

 

Por exemplo, o Tipo Naval 0* (conhecido simplesmente como “Zero”), o principal caça da Marinha Imperial Japonesa na Segunda Guerra Mundial, usava materiais de grande elasticidade propositalmente nos cabos de controle. Quando a força do vento pressionava as superfícies de controle, os cabos esticavam, permitindo que as superfícies de controle se movessem menos do que o comando equivalente. Desta forma, a efetividade dos controles se mantinha a mesma, até mesmo em altas velocidades.

 

*NT - formalmente, o Caça Naval Tipo Zero Embarcado em Porta-Aviões, ou Mitsubishi A6M.



 

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Porém, se as características de controle são “planas”, como Asano havia notado, é difícil de determinar os limites da aeronave. Um mecanismo que desse algum tipo de resposta se uma manobra próxima dos limites fosse executada provavelmente seria implementado no futuro. Este mecanismo deveria mudar os controles para que ficassem mais difíceis de usar quando se chegasse perto dos limites.

 

O problema é que este tipo de sistema de resposta não indica as verdadeiras condições de voo, mas sim o que os projetistas determinam como ideal. Não haverá respostas para controles dados como aceitáveis. Enquanto o computador determinar que há a possibilidade de voo estável, a resposta dos controles permaneceria a mesma.

 

Mesmo que um pedaço da asa se separe da ASF-X, há a probabilidade de que o piloto nem note que algo aconteceu se estiver nivelado. Os pilotos de teste sentiam que o avião não oferecia resistência, e deixava algo a desejar quando controlado.

 

Sonoda, que tinha experiência voando aeronaves pequenas de motor a pistão, se sentia desconfortável no ASF-X. Para esses aviões a hélice, até mesmo um adesivo grande na asa fazia uma diferença nos controles.

 

A jovem Nagase, porém, voa o ASF-X se divertindo. Asano, assim como Nagase, controlava o ASF-X melhor que Sonoda.



 

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Vocês são com certeza uma nova geração de pilotos, ele pensou.

 

Sonoda não era nem acostumado a voar aviões a hélice monomotores, mas se sentia desconfortável como um piloto da era a jato. Se estivesse vivo na época da Segunda Guerra Mundial, essa sensação certamente seria natural. Ainda mais no passado, usar velocímetros e altímetros para pilotos que voavam sentindo o vento na cara provavelmente causaria esse mesmo desconforto.

 

Como um ancestral uma vez disse, “O fluxo de um rio nunca muda, mas a água que por uma vez passou nunca passará de novo”*.

 

*Frase creditada a Kamo no Choumei, no livro Houjouki (Relatos da minha cabana) - embora haja referências a Heráclito, filósofo grego.

 

Pensando nisso, Sonoda sentiu vontade de suspirar.

 

“Tô ficando velho…”

 

“Descente, não entendi, repita!”

 

Ao ouvir a voz preocupada do operador, Sonoda notou que tinha falado em voz alta.

 

“Foi mal, estava falando sozinho.”

 

Ele ouviu o operador suspirar, aliviado.

 

Como será a geração de pilotos da Nagase? Ficarão eles em frente de um monitor, pilotando seus caças com um controle? Ele lembrou de ver vários recrutas totalmente envolvidos no videogame chamado “Ace Combat” durante os intervalos.

 

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Com quatro Q-Xs alinhados no hangar, era um pouco assustador.

 

Isso se devia ao fato de que a pintura de baixa visibilidade, com sua superfície superior em azul escuro que lembrava o oceano e a parte inferior azul cinzenta eram cores apropriadas para o Q-X, que na luz fraca parecia um dragão abrindo suas asas.

 

São pequenos se comparados a caças tripulados, mas ainda têm o porte de uma aeronave leve. Suas asas eram longas, o que os fazia parecer maiores a depender da direção que eram vistos.

 

Os desenhistas do Q-X estão trabalhando num desenho aerodinâmico agressivo, diferente da ideia por trás do ASF-X. Só de olhar para a fuselagem, que possui envergadura duas vezes maior que o comprimento total da aeronave, é difícil de acreditar que se trate de um avião supersônico.

 

Outro ponto importante é o pequeno tamanho dessa fuselagem. As várias forças que agem num avião mudam a depender do seu tamanho, mas o material utilizado nele é sempre o mesmo, então há vantagens e desvantagens no desenho a depender do tamanho.

 

O fato de que se trata de um UAV indica o último aspecto de seu desenho agressivo.

 

Embora o hangar fosse escuro, Togura, ainda usando seus óculos de sol, mexeu na sua barba com a mão esquerda e apontou para a aeronave mais distante de si com sua bengala, chamando a atenção de Sagi para ela.

 

“O extra que fizeram pra cumprir o pedido de uma formação de quatro aviões acabou de chegar. Já amanhã estará sendo testado.”



 

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“Temos operadores o suficiente?”

 

“Usando uma formação de quatro, o Kelley consegue sozinho sem problema. A partir da minha análise, ainda com nossos controles atuais, uma formação de 16 aviões é possível. Porém, em casos nos quais tenhamos que utilizar mais de quatro aviões, seria ideal aumentar o número de controles só por garantia.”

 

“Mas com quatro em formação, é lindo de se ver. Estou ansioso para quando eles forem produzidos em massa, e todos se alinharem.”

 

Togura se virou para encarar Sagi e se apoiou na sua bengala.

 

“Vou te falar uma coisa: esses protótipos de terceira geração, por ora, são derivados do desenho da segunda geração. Os produzidos em massa não vão sair barato assim.”

 

A capacidade de ser produzido em massa é uma vantagem do Q-X. Eles deveriam ser baratos, pensou Sagi, mas não havia necessidade de irritar o Togura, que explicava tudo de bom grado. Além disso, o que ele queria dizer com “barato” provavelmente não era a respeito dos custos unitários.

 

Se bem que ter um item de alta procura que mobiliza muito dinheiro daria a eles maior influência. Para Sagi, o fato de que o custo unitário do Q-X sobe apenas baseado nas suas capacidades deveria ser algo para se comemorar.

 

“Olha, eu não sou nenhum especialista em desenho aeronáutico, só mexo em alguns detalhes. Mas esse de terceira geração é feio. Deviam mudar algo nisso.”

 

Verdade. O PhD do Togura é em engenharia de sistemas, não aerodinâmica.

 

Porém, desde que o Togura se envolveu no projeto ano passado, o Q-X mudou de forma drástica. Para Sagi, supervisor do Projeto Q-X do Ministério da Defesa, era um golpe de sorte.



 

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Tudo começou quando Togura, um professor visitante de uma universidade nacional, vendeu um novo sistema de controle de aeronave que ele havia inventado através de conexões com um dos membros da equipe de desenvolvimento. Depois da derrota total contra os F-2s no exercício de combate, a Ala de Desenvolvimento Aéreo e Testes, sob pressão para revisar o sistema, pulou de cabeça na proposta do Togura.

 

Depois disso, Togura mandava em tudo.

 

Só de bater o olho no desenho do Q-X e nos planos de desenvolvimento, Togura apontou as áreas que precisavam de melhoramentos. As coisas que ele dizia eram assustadoramente apropriadas, e as capacidades do protótipo, assim como a produtividade, aumentaram de forma drástica.

 

Mesmo assim, a mudança mais significativa foi na modificação do sistema de controle.

 

O sistema de controle que o Togura inventou não tinha precedentes.

 

Pode-se até dizer que era um sistema revolucionário, que mudava totalmente o conceito de controlar um avião.

 

Com um sistema de comando fora do comum e os melhoramentos no sistema de controle autônomo trabalhando lado a lado, o Q-X evoluiu de uma plataforma de reconhecimento à distância com capacidade de ataque para um sofisticado caça de suporte.

 

Suas capacidades eram mais do que suficientes para elevar ainda mais as ambições de Sagi.

 

“Depois que o segundo ASF-X for concluído, temos planos de realizar treinos de combate usando o Q-X. O que você acha?”

 

Togura corrigiu sua postura.



 

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“O ASF-X é sem dúvida um caça impressionante, mas no fim das contas é só outro F-2. O mérito estratégico do Q-X com capacidade de manobra em combate aéreo já foi confirmado. Os sistemas de controle de nova geração com certeza continuarão a ser desenvolvidos e permanecerão.”

 

“Não, eu quero saber se dá pra vencer o ASF-X em um embate 2 contra 2 ou 2 contra 4. É essa a pergunta.”

 

Togura tinha uma expressão estranha em seu rosto, e encarou Sagi.

 

“Se não dá pra ganhar com os mesmos números, dobre-os. Se ainda assim não der, quadruplique. É assim que o Q-X opera.”

 

“Você não está entendendo. Isso é uma batalha para determinar qual dos dois é mais competente como um caça. Se não der pra ganhar com quatro de nós contra dois deles, o ASF-X é superior.”

 

O objetivo de Sagi era tomar posse do orçamento do programa ASF-X.

 

Aqueles com mais dinheiro têm maior influência e autoridade. Atualmente, o chefe do imenso projeto ASF-X é Zaitsu, e o caminho para a posição de Vice-Ministro da Defesa pende pesadamente a seu favor.

 

Com a introdução de Togura, uma chance de mudar essa relação de poder emergiu.

 

“Se o formato do exercício for o mesmo do que com os F-2s, o Q-X pode vencer a ASF-X com os mesmos números. Nós desenvolvemos uma tática para usar a manobrabilidade sem precedentes do Q-X em nossa vantagem. Aqueles que não entenderem e tentarem combater-nos usando táticas convencionais estarão em desvantagem. Não é algo que dê pra se compensar com desempenho individual.”



 

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Depois de responder com uma expressão estupefata, Togura se virou.

 

“Você tem confiança?”

 

“Tenho. Mas desse jeito ganhar não tem sentido. Se você quer mesmo comparar o Q-X e o ASF-X, a gente tem que arrancar aquele lixo do ASF-X e colocar no lugar um sistema de controle igual ao do Q-X .”

 

“Lixo…?”

 

“Pilotos frágeis incapazes de reagir imediatamente.”

 

Togura virou-se e respondeu.

 

Há quatro anos, com o sucesso do FFRS*, um modelo melhorado do sistema de observação remoto da JSDF, a Força Aérea criou um plano para distinguir sua aeronave não tripulada de reconhecimento de nova geração do FFRS. Esta nova aeronave deveria ser capaz de voar longas distâncias e possuir um alto grau de versatilidade. Foi para esse plano que o Q-X fora criado.

*FFRS - Flying Forward Reconnaissance System (sistema voador de reconhecimento avançado)

 

Como um projeto, era algo pequeno, impossível de comparar com o projeto ASF. Até mesmo agora, a diferença entre os dois se encontrava na casa de dois dígitos. Porém, aqueles envolvidos no desenvolvimento estavam transbordando de ambição. Talvez um pouco demais.

 

O Q-X é capaz de voo supersônico devido ao seu motor a jato de baixa passagem, e ao mesmo tempo tinha um desenho altamente eficiente utilizando uma envergadura longa e razão de aspecto alta. De certa forma, era um desenho contraditório que tentava fundir duas aeronaves de reconhecimento com velocidades máximas extremamente diferentes, mas devido aos avanços na ciência dos materiais e à sua natureza como veículo não tripulado, era capaz de tornar isso realidade diminuindo o seu tamanho.



 

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Para aumentar a manobrabilidade, ficou decidido que as asas seriam de um tipo flexível do meio até as pontas como no ASF-X, mas as duas eram muito diferentes.

 

O mais provável era que os projetistas tivessem ficado descuidados com a liberdade que tinham devido ao projeto ser não tripulado. O protótipo finalizado tinha uma aparência deveras grotesca, mas possuía mobilidade acrobática inacreditável. A sua aparência tornava difícil de acreditar que era capaz de evadir detecção por radar.

 

Com um sistema de controle incompleto e mobilidade extrema, o Q-X de primeira geração era difícil de controlar, e no fim, os três protótipos foram perdidos em acidentes.

 

Porém, não havia dúvida de que a performance do Q-X era sem precedentes. Os protótipos de segunda geração foram feitos utilizando a experiência e o know-how obtidos dos anteriores. O desenho do Q-X era radical e inovador, mas a configuração era feita com base em métodos existentes e testados, o que permitia produzir os protótipos em pouco tempo e a baixo custo.

 

Com a instalação de uma tecnologia de voo autônomo estável, o protótipo de segunda geração obteve grande sucesso.

 

Até ser testado contra caças em combate aéreo.

 

Embora tivesse manobrabilidade superior, só isso não bastava para fazê-lo útil em combate.



 

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O Q-X tinha um perfil de radar menor também, e era esperado que obtivesse boas estatísticas de combate utilizando mísseis ar-ar de ponta que “acertariam o alvo, não importando aonde fossem apontados”. Porém, havia um erro grande nesse pensamento. Não foi contabilizada a diferença de desempenho em combate de uma aeronave tripulada e não tripulada.

 

De qualquer forma, aeronaves não tripuladas militares têm uma história longa se comparadas a aeronaves militares em geral.

 

15 anos após o primeiro voo dos irmãos Wright, os Estados Unidos completaram a construção do “Kettering Bug”, uma aeronave não tripulada experimental para uso durante a Primeira Guerra Mundial, em 1918. O Kettering Bug carregava uma bomba de 180 libras (82 kg) e usava um controle automatizado deveras sofisticado para sua época, voando para a área alvo e explodindo (seria mais tarde erroneamente denominado como “torpedo aéreo”).

 

O projeto Kettering Bug terminou sem ser utilizado em combate, mas esse tipo de aeronave não tripulada evoluiu e se tornou vastamente utilizada na forma de mísseis de cruzeiro - na Segunda Guerra Mundial, o lendário Fieseler Fi 103, mais conhecida como V1, motorizado a pulso-jato, foi utilizado em massa.

 

Todavia, ao invés de simplesmente entrar na zona alvo e explodir, uma aeronave não tripulada que continuasse voando e fizesse reconhecimento necessitava de um sistema de controle muito mais complexo, e demorou muito tempo para que uma dessas se tornasse prática. Similarmente, mesmo quando mísseis que eram capazes de derrubar outras aeronaves foram disponibilizados, não foi fácil criar um UAV que pudesse unilateralmente derrubar aeronaves inimigas.

 

O motivo se deve à necessidade de, tanto para reconhecimento como para combate, possuir-se uma capacidade de decisão.


 

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O problema era ou fazer com que o drone tomasse decisões remotamente, ou tornar decisões parte do sistema em si. O erro do Q-X de segunda geração foi ter diminuído a importância do tomar de decisões em combate aéreo e confiar demais nas capacidades dos mísseis.

 

O problema com o tomar de decisões via controle remoto poderia ser localizado nas dificuldades de comandar os drones.

 

Cada Q-X é um sistema deveras avançado, mas individualmente as aeronaves são isoladas por conta de limites na velocidade de transmissão. Controlar cada avião minuciosamente não era possível com a atual tecnologia de operação remota. Era uma situação similar à diferença entre um oficial subordinado comandando suas tropas “no grito” e um general de alta patente comandando uma unidade via rádio - os comandos são diferentes a depender do escopo.

 

O problema agora era como transmitir a informação que o Q-X absorvia para o operador e como refletir as decisões do operador no movimento do Q-X.

 

Tudo isso fora resolvido pelo gênio do Togura.

 

Engenharia de sistemas ainda era uma ciência recente na sociedade moderna.

 

Nos dias de hoje, tudo fica mais complicado, e à medida que cada disciplina se especializa em campos mais focados, há uma necessidade de conectar todos os diferentes campos. O método pelo qual tudo era compreendido como um sistema único começou a ser pesquisado profissionalmente.

 

Por exemplo, tornou-se essencial para planos de negócios que todos os aspectos fossem matematicamente otimizados via pesquisa de operações. Em outra instância, devido ao advento do campo da cibernética, o conceito de feedback saiu do escopo da engenharia e agora é aplicado em todos os campos. Gerenciamento de sistemas se tornou uma necessidade em todas as áreas da sociedade, e até mesmo no Japão, acadêmicos com doutorado em pesquisa de análise de confiabilidade de sistemas emergiram.


 

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Togura é um pesquisador de inteligência artificial, mas ao invés de fazer pesquisas investigativas em hardware e software, ele decidiu se ater a pesquisar o todo como um sistema.

 

Ao olhar para o progresso da engenharia de eletrônicos, ciência médica, e biologia na mesma geração, ele desistiu de tentar desenvolver “inteligência” em sua geração.

 

A pesquisa de Togura não dizia respeito à inteligência artificial em si, mas focava na aparência de um sistema controlado por inteligência e como seria se este fosse artificialmente gerenciado. Foi aí que um robô de desempenho sofrível se mostrou, e tentou vender seu sistema de controle.


 

Esse robô de desempenho sofrível era o Q-X.


 

Togura usou sua maneira de pensar única, proveniente de seu campo de estudo, para sobrepujar e dominar os membros da Ala de Desenvolvimento Aéreo e Testes.

 

Agora, o Q-X era praticamente dele.

Exercício

​Página 80

 

O segundo modelo do ASF-X, “Zero Dois”, foi entregue ao Esquadrão Conjunto de Testes e Avaliação por meio de vias marítimas e terrestres.

 

Ao contrário do primeiro modelo, ao invés de passar um ano em testes nas Indústrias Pesadas Taiga antes de ser entregue à JASDF, o segundo modelo apenas passou por dois meses de teste. O principal ponto de venda deste modelo era a capacidade STOVL*, mas cabia à JASDF testar e avaliar tais capacidades. Era diametralmente oposta ao primeiro modelo, que não possuía envolvimento nenhum do Ministério da Defesa.

 

*STOVL - Short Take-Off, Vertical Landing (decolagem em pista curta, pouso vertical)

 

Formalmente, o segundo modelo pertencerá à JASDF, mas na verdade, é um protótipo de testes para a JMSDF* com intenção de ser operado a partir de porta-aviões.

 

*JMSDF - Japan Maritime Self-Defense Force (Força Marítima de Autodefesa Japonesa)

 

Já que era a única que fazia parte do Esquadrão Conjunto de Testes e Avaliação proveniente da JMSDF, Nagase achava que o segundo avião era dela. Adicionalmente, os únicos que tinham experiência com pouso e decolagem na vertical eram ela mesma e Asano, que eram pilotos de helicóptero qualificados.

 

Nagase, que não planejava deixar nenhuma outra pessoa pilotar o segundo avião, ficou chocada quando ouviu que Asano era capaz de pilotar helicópteros.

 

Sem dúvidas, durante o tempo dos dois no 306º Esquadrão em Komatsu, Asano era incapaz de pilotar um helicóptero. Como ele adquiriu tal habilidade do nada era um mistério.


 

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À medida que o sol se punha e escurecia, Nagase subiu no telhado do dormitório e percebeu que já havia alguém lá.

 

“Asano?”

 

Asano se virou e acenou, depois retornou seus olhos para o céu.

 

“Olhando estrelas?”

 

“É.”

 

“Treinando a visão, por acaso?”

 

Asano tinha uma expressão levemente surpresa, e devolveu a pergunta.

 

“Não, eu só estava a fim de olhar as estrelas. Por que é que você achou que era treino?”

 

“Eu li num livro que pilotos de caça antigamente ficavam olhando para o céu durante o dia e procurando estrelas como forma de treinamento para a acuidade visual.”

 

“É isso que você veio fazer?”

 

Mesmo após persistir por mais de um mês, Nagase não conseguiu localizar nenhuma estrela antes do pôr do sol.

 

“Agora eu só faço de noite. Eu não desisti de fazer durante o dia, é só que eu fico entediada olhando pro céu azul.”

 

“Não se tem marcadores durante o dia, então você precisa de conhecimento e preparação.”

 

Em outras palavras, Asano possui esse conhecimento. Para a Nagase, isso era meio irritante.



 

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Enquanto os dois conversavam, o céu rapidamente escureceu.

 

Nagase apontou para uma seção do céu.

 

“Aquela constelação é Órion, não é? Já ouviu falar? Tem três estrelas fracas no meio do arranjo retangular.”

 

“Você quer dizer a Espada de Órion? A estrela do meio não é uma estrela, é a Nebulosa de Órion, M42. É a nebulosa difusa mais brilhante do céu.”

 

Tendo ouvido que se tratava da “mais brilhante”, a Nagase sentiu como se sua grandiosa descoberta tivesse sido tornada trivial.

 

“Você diz que é a mais brilhante, mas só entre as nebulosas, né?”

 

“Exato. M42 na Espada de Órion e Iota de Órion tem uma magnitude de 3, mas tem estrelas bem mais brilhantes na constelação, então o fato de que elas não se destacam é bem esperado.”

 

“É difícil até de ver estrelas de magnitude 3 no Japão!”

 

“Se você vai procurar estrelas mais fracas, você devia usar um mapa estelar. Procurá-las sem saber suas localizações é difícil.”

 

“Eu não quero ouvir isso de um cara que só fica olhando pra elas a esmo.”

 

Nagase estava irritada, mas também aliviada. Ela tinha aprendido que Asano tinha emoções o suficiente para ser capaz de irritar alguém.

 

Sabendo ele dos pensamentos dela ou não, ele parou de olhar para o céu e franziu a testa ao olhar para o seu relógio de pulso.

 

“O que foi?”



 

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“Chegou a hora.”

 

Asano apontou para o canto sudoeste do céu.

 

Nagase focou sua visão e embora o céu ainda estivesse claro, um ponto luminoso apareceu. Estava se movendo para nordeste. Após passar por cima, o ponto desapareceu.

 

“N-não é uma estrela cadente, né?”

 

“É a ISS-II, a atual Estação Espacial Internacional.”

 

Até mesmo a Nagase estava levemente abalada.

 

“Eu não fazia ideia que era assim tão brilhante…”

 

“Só quando dá pra ver. Algumas condições fazem com que ela seja mais comumente invisível a olho nu mesmo que passe diretamente sobre você. Agora mesmo, ela passou para além do horizonte, então você não conseguiu ver, não foi?”

 

Depois de dizer isso, Asano começou a caminhar em direção às escadas, deixando Nagasa para trás.

 

“Espera aí!”

 

Assustado com o repentino tom mais duro, ele parou e virou-se.

 

“Vamos fazer um desafio pessoal. Com o Shinden II.”

 

Asano, de tão confuso, ficou boquiaberto.



 

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“Como é?”

 

“Zero Dois já chegou, nós temos duas aeronaves. Durante o exercício de combate, vamos descobrir quem tem mais habilidade com o ASF-X.”

 

“Isso não teria significado algum. Você não ouviu os engenheiros das Indústrias Taiga falando que as duas são diferentes? De qualquer forma, elas são aeronaves de teste. Mesmo num exercício, não faz sentido.”

 

“Tá tentando fugir, é?”

 

“Só estou dizendo que não tem sentido. Eles provavelmente não vão deixar duas de suas preciosas aeronaves de teste voar ao mesmo tempo.”

 

Asano começou a andar em direção às escadas.

 

“Você não vai fugir.”

 

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Contrariando a previsão de Asano, os voos simultâneos do Zero Dois e do Zero Um começaram imediatamente.

 

Isso se devia ao fato de que para acompanhar e conseguir filmagens aéreas dp ASF-X, só o próprio ASF-X era capaz de completar esta tarefa.

 

Ao menos, essa era a explicação dada. O treinamento para voos em formação das duas aeronaves começou.

 

“Aqui é Edge. Aster, se tiver combustível de sobra, quer se divertir um pouco na volta?”

 

Antigamente, na era onde os voos de teste eram feitos com mais leniência, dizia-se que os pilotos de teste se enfrentavam em exercícios de combate secretos e não autorizados sem o conhecimento da torre de controle.



 

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Porém, quem respondeu ao convite de Nagase não foi Asano, mas sim Mishima.

 

“Edge, eu vou deixar você participar de jogos de guerra num futuro próximo, então tenha paciência por hoje.”

 

Oose, que monitorava tudo do centro de controle, ficou chocado ao ouvir o que Mishima dizia.

 

“Você vai permitir que eles duelem?”

 

“Aham.”

 

Oose cruzou os braços e inclinou a cabeça.

 

“Falando nisso, desde que o Zero Dois foi entregue, a Nagase e o Asano tiveram mais voos que o normal. Você estava planejando mandá-los ao exercício de combate desde o início?”

 

“É bem por aí mesmo. Mas o objetivo não é uma competição interna. A necessidade de treinar um elemento apareceu de repente. Foi mal, mas a Nagase e o Asano são pilotos de primeira. Você e o Sonoda são a segunda linha.”

 

“Como assim? Não entendi.”

 

Surpreendentemente, Mishima relaxou seus ombros.

 

“Eu vou ter que explicar no debriefing de hoje. Isso é culpa da Nagase. Pra falar a verdade, a pedido do QG, foi decidido que nós enfrentaremos o Q-X num exercício de combate. E não temos muito tempo.”

 

“A… pedido?”

 

“É.”



 

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“O Q-X tem experiência com incontáveis exercícios de combate. Já até ganhou da F-2, agorinha. O que a gente tem são aeronaves de teste para o programa ASF, ao menos por agora. Nem dá pra chamar de incompleto.”

 

Se foi uma ordem, havia uma chance de levantar uma razão válida e vetá-la. Oose trazia uma razão fantástica. Mas já que a tarefa não tinha razão, ela foi apresentada como um “pedido”.

 

O problema era que esse “pedido” não dava escolha para o Esquadrão Conjunto de Teste e Avaliação.

 

“Eu já dei uma olhada nisso, mas tem gente envolvida no Q-X que não gosta nem um pouquinho do projeto ASF. Se a gente recusar, a situação só piora.”

 

Uma expressão consternada seria apropriada, mas os dois começaram a rir.

 

“Se é a Nagase, vai que dá certo.”

 

“O Asano vai participar também.”

 

O treino de voo em formação da Zero Dois com a Zero Um foi acelerado e feito cuidadosamente.

 

O Zero Dois, um tipo STOVL*, tinha uma fuselagem muito mais leve que o Zero Um, e isso criava vários limites nele que o Zero Um não tinha. A respeito disso, ele possuía mais equipamento focado em armamento, e o peso total era superior ao do Zero Um. Adicionalmente, as características aerodinâmicas das duas aeronaves são iguais, mas o método de operação é bem trabalhoso.

 

*STOVL - Short Take-Off, Vertical Landing (decolagem em pista curta, pouso na vertical)

 

À medida que os pilotos de teste e pessoal da engenharia usavam o Zero Dois, eles começaram a achar que a maioria desses limites se devia a precauções excessivas, mas para provar isso, se precisava de muito mais dados de voo. Por ora, esses limites precisavam ser seguidos.



 

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O Zero Dois tinha outro aspecto que dificultava sua operação.

 

Os novos limites FBL (fly-by-light) eram preparados para responder diretamente ao sistema de controle, mas era um sistema inadequado e interferia muito com o que os pilotos sentiam nos controles. Era até compreensível, sendo que se tratava de um protótipo, mas entre os membros do esquadrão que tinham expectativas altas para o Zero Dois, era um grande desapontamento.

 

A Nagase e os outros escreveram um monte de relatórios de reclamação e os enviaram para as Indústrias Pesadas Taiga como uma forma de mostrar este sentimento.

 

Além disso, tinha outra coisa que irritava a Nagase de forma pessoal.

 

O Asano pilotava o Zero Dois exatamente como fazia com o Zero Um, como se não houvessem diferenças ou problemas.

 

“Cara, que bizarro. Ele tem um computador na cabeça ou o que?”

 

Numa tarde, ela finalmente levantou a questão na sala de descanço.

 

“Bem, o Asano mesmo tem uma resposta tão padrão que é bem capaz dele não conseguir determinar o desempenho da ASF-X.”

 

Sonoda concordou, sorrindo. Ele era um desses que não conseguia se acostumar com o Zero Dois, mas olhando tudo de forma objetiva, ele sentia que a Nagase estava mais pro Asano do que para ele em termos de habilidade.

 

O negócio era que olhando pra Nagase tanto dentro quanto fora do cockpit, o quanto ela forçava a si mesma ficava óbvio. Ela se movia sem motivo demais, e não era algo que fosse digno de elogios.



 

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Do outro lado, era impossível determinar o grau de dificuldade ou as condições diferentes com base na pilotagem do Asano. Era sempre a mesma cara azeda e o voo consistentemente estável. Não havia variação. Disso, ninguém fazia ideia se o Zero Dois era boa ou ruim.

 

Contudo, essa monotonia não era totalmente horrível.

 

Originalmente, o sistema de restrição de voo do ASF-X foi criado usando cálculos computadorizados sobre dados aerodinâmicos previstos. Isso ainda estava incompleto, o que tornava a pilotagem muito instável, mas toda vez que o Asano pilotava o Zero Dois, o sistema por qualquer motivo que fosse estabilizava.

 

Em outras palavras, o Asano estava corrigindo os erros do modelo de voo do computador em tempo real durante o voo. As habilidades dele podem exceder a do computador.

 

Naquele exato momento, Asano apareceu.

 

“Asano, como é que que você tá controlando aquela coisa?”

 

“Como assim?”

 

“Como é que você pilota o Zero Dois do mesmo jeito que pilota o Zero Um?”

 

A cara do Asano indicava que ele só estava mais e mais confuso.

 

“As características de voo das duas são basicamente as mesmas, então eu as piloto da mesma forma.”



 

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“As mesmas uma ova! O feedback do Zero Dois é uma droga.”

 

“Ah, aquilo? Quando eu percebi que estava incompleto, eu ignorei.”

 

Ao ouvir isso, Oose fechou as mãos, punho na palma.

 

“Entendi. Tem muita força no manche, mas você se vira bem.”

 

Nagase franziu a testa.

 

“Opa, não vá entendendo as coisas sozinho. Eu não entendi nada do que esse cara acabou de falar.”

 

Acenando com a cabeça, Oose começou sua explicação.

 

“O feedback do Zero Dois para o sistema de controle é indicado por quanta força você coloca no manche e no acelerador. A resposta da aeronave a comandos é a mesma do Zero Um. Tudo o que muda é o quão difícil é mexer nos controles.”

 

Nagase e Sonoda ficaram boquiabertos.

 

“Só isso?”

 

Nagase perguntou ainda mais ao Asano.

 

“Se você percebeu isso, não era melhor ter falado com todo mundo imediatamente? Ou você não se tocou que todos nós estávamos tendo problemas?”



 

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Asano franziu a testa e respondeu.

 

“Percebendo ou não, vocês deveriam saber desde o começo que o sistema de feedback só entra em ação para impedir que você exerça a fuselagem de modo indevido. O que vocês reclamaram, na verdade, é que o manche é difícil de se mexer quando se fazem movimentos sutis.”

 

Fazer movimentos sutis era o equivalente a dizer que, para um pequeno movimento, haveria uma grande resposta e movimento da aeronave. O sistema de feedback indicava isso fazendo o manche ficar pesado.

 

A raiva da Nagase se virou então para as Indústrias Pesadas Taiga.

 

“Você é burro ou o que? Qual é o motivo por trás de se endurecer os controles quando se quer mover de forma precisa? Não tem pra que ter feedback a não ser que você possa pilotar sem fazer ajuste nenhum. É horrível.”

 

Dessa vez, o Asano se surpreendeu.

 

“Verdade. É péssimo ter um feedback que responde da mesma forma a pequenos movimentos e controles perigosos. Eu não devia ter ignorado isso e fingido se tratar de um sistema incompleto.”

 

Sonoda sentiu como se houvesse percebido a falha de Asano.

 

Ele era inteligente e adaptável demais. A sua resposta rápida a variadas situações acabava por atrapalhar a identificação de problemas.



 

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Ao perceber que o Zero Dois podia ser pilotada da mesma forma que o Zero Um se as características do manche e acelerador fossem ignoradas, a operação dos outros três pilotos melhorou consideravelmente. Os pilotos do Esquadrão Conjunto de Teste e Avaliação eram os melhores dos melhores. Eles foram capazes de se adaptar à resposta complexa do Zero Dois da mesma forma que se adaptaram ao Zero Um, que não respondia de forma nenhuma.

 

Controlar o avião dessa forma tornava aparente que a resposta do manche tomada a partir do limite preestabelecido era excessiva pela maior parte. Ao perceber isso, Nagase e Oose  adicionaram essa nota aos seus relatórios com prazer.

 

Assim que os testes de desempenho do Zero Dois foram completados, tanto Zero Um e Zero Dois foram desarmados e levados de volta por pilotos de teste das Indústrias Pesadas Taiga.

 

Depois que as inspeções gerais das duas aeronaves ASF-X forem terminadas, o Zero Um seria equipada com o mesmo sistema de controle do Zero Dois, e outras melhorias que a tornariam um modelo completo de decolagem e pouso convencional.

 

“A respeito disso, tem um problema meio complicado.”

 

A expressão de Mishima ao dizer isso era azeda.

 

“As duas aeronaves vão receber um sistema de controle melhorado. Isso inclui as respostas no manche que a Nagase propôs.”

 

Oose levantou a mão e fez uma pergunta.

 

“Em outras palavras, isso significa que as características de controle da aeronave vão mudar? Tipo como o antigo Zero Dois tinha um manche pesado, só que com extras.”



 

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“Por aí.”

 

Nagase não estava feliz.

 

“Ah, que saco. Especialmente agora.”

 

“Não diga isso. O desenvolvimento é justamente para ajustar as coisas e criar um sistema fácil de usar.”

 

Mishima limpou a garganta e avisou a todos.

 

“Infelizmente, não é tudo na boa assim, que nem o Sonoda disse. Daqui a duas semanas, basicamente cinco dias depois que as duas voltarem, nós temos que nos acostumar a formações de combate.”

 

Uma agitação generalizada tomou conta dos pilotos e engenheiros.

 

“Em outras palavras… daqui a duas semanas a gente vai de cara contra o Q-X no exercício de combate pilotando aviões com características de controle basicamente desconhecidas?”

 

Mishima acenou, silenciosamente, em resposta a Sonoda. Isso era um problema que precedia a finalização do ASF-X.

 

Dessa vez, Asano levantou a mão.

 

“Não importando quais as circunstâncias, isso é uma péssima situação. É muito estranho.”

 

“Nós sabemos.”

 

“As Indústrias Pesadas Taiga estão cientes do exercício de combate?”

 

Mishima respondeu “claro que sabem” mas nesse ponto a expressão dele mudou. Nesse momento, ele percebeu que estava prestes a dizer que um gerente das Indústrias Pesadas Taiga que veio para uma reunião foi requisitado, sem explicação, a diminuir o tempo das inspeções.



 

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Não havia dúvidas de que o período de inspeções foi encurtado para acomodar o exercício de combate contra o Q-X. O cara das Indústrias Pesadas Taiga não fazia ideia do que estava acontecendo.

 

Por que?

 

Pode ser que haja uma oportunidade de negociar com as Indústrias Pesadas Taiga.

 

“Sobre o sistema de controle, nós vamos conversar com as Indústrias Pesadas Taiga. Por ora, o treinamento para o exercício de combate será iniciado com os T-4s. Se a Ala de Desenvolvimento Aéreo e Testes cooperar, a gente pode adicionar os dados do Q-X no simulador do ASF-X e treinar desse jeito. O tempo é curto, mas vamos fazer o possível.”

 

Os elementos foram formados e o treinamento para voos em formação e manobras de combate usando os T-4s começou.

 

Nagase queria competir contra o Asano, e parecia irritada quando o esquadrão foi dividido em duas equipes: Nagase/Asano e Sonoda/Oose.

 

Os quatro eram excelentes pilotos, e não haveriam problemas em voos de formação enquanto eles estivessem nos T-4s.

 

Mishima nunca disse que a melhor equipe participaria no exercício de combate. Ele deixou claro a priori que a Nagase e o Asano seriam enviados para o exercício de combate, e instruiu Sonoda e Oose a pesquisar o Q-X sob a premissa de agirem como agressores.

 

Porém, havia um problema que persistia devido à divisão de equipes.

 

Nagase e Asano tinham excelentes habilidades ao controlar suas aeronaves, mas suas carreiras como pilotos de caça eram curtas e não tinham experiência em exercícios de combate. A Nagase fazia parte da 19ª Força-Tarefa, que possuía uma temida reputação e era chamada de “Jyu-ku”, mas não tinha nenhuma experiência de DACT*.

 

* DACT - Dissimilar Air Combat Training (Treino de Combate Aéreo Dissimilar)



 

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Parecia um pouco tarde, mas Mishima precisava confirmar os seus sensos de combate.

 

E finalmente, a Nagase poderia tomar parte num exercício de combate contra o Asano.

 

“Não tem problema nenhum jogar a Nagase e o Asano um contra o outro assim do nada?”

 

Sonoda expressou sua dúvida francamente de sua cadeira na sala de briefing.

 

“Eu acho que seria uma boa ideia deixar que um de nós com mais experiência em exercícios de combate treinar com eles ao menos uma vez, para que eles tenham ao menos um pouco de experiência.”

 

Mas não havia nada que se podia fazer agora se um deles quisesse participar do exercício de combate. Se alguém quisesse, seria como levar uma reclamação ao Mishima.

 

Em resposta, Mishima explicou que isso se tratava de “um exercício de combate para o exercício de combate” nos T-4s.

 

“O objetivo principal disso é preparar mentalmente a Nagase e o Asano para que eles respondam prontamente num exercício de combate. Ao obter experiência contra um oponente, eles com certeza aprenderão uma coisa ou outra a respeito um do outro.”

 

A Nagase estava determinada a dar uma lição no Asano.

 

O T-4 era um avião de treino e não tinha quaisquer armamento. Não se precisa de armas num exercício de combate, mas sem um sistema de controle de armas, um verdadeiro exercício de combate simulando o uso de armamento não pode ser conduzido. Aqui, teremos um jogo de pega-pega com aviões. Os dois são o “pega” e quem ficar mais tempo atrás do outro ganha.



 

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O combate aéreo é coloquialmente apelidado de “dogfight”, em referência a uma comparação a dois cães correndo atrás do rabo um do outro numa briga. O exercício de combate nos T-4s é uma “briga de cachorro” tradicional.

 

No combate aéreo moderno, não há garantias de que alguém não será derrotado se o inimigo não conseguir ficar atrás dele, mas para comparar as habilidades de dois pilotos, é certamente apropriado.

 

Os quatro T-4s decolaram, com Nagase e Asano no papel de combatentes e Oose e Sonoda encarregados da filmagem.

 

Mishima confiava nas habilidades dos quatro pilotos e colocou algumas mínimas restrições para prevenir ações perigosas, mas declarou que basicamente valia tudo. Mesmo com um espaço aéreo de exercício em vigor, conseguir permissões para voo não era fácil.

 

À medida que o exercício começou, Nagase e Asano começaram a acelerar ao mesmo tempo.

 

Nenhum dos dois tentou desacelerar. Mesmo que isso colocasse quem o fizesse atrás do outro, perder velocidade e manobrar permitiria que o outro escapasse de seu perseguidor.

 

Obter a vantagem com energia. Isso foi estabelecido na era a jato como uma parte fundamental do combate aéreo.

 

Converta precisamente sua energia cinética e potencial para que a energia total da aeronave não se perca.



 

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Mergulhe para acelerar rapidamente. Suba quando estiver desacelerando, para recuperar altitude e reacelerar. Estas eram táticas utilizadas sem muito conhecimento desde que o combate aéreo começou, na Primeira Guerra Mundial. Quando a era a jato chegou e a energia que os aviões possuíam aumentou, voar pensando no nível de energia se tornou crucial.

 

Um piloto que não entende a regra fundamental de ter mais energia por vezes faz manobras que desperdiçam altitude e velocidade ao mesmo tempo. Dessa forma, o jato sem energia é presa fácil para o inimigo.

 

Nagase sabia dessa regra fundamental, mas não tinha paciência alguma.

 

Ela aumentou sua altitude e desacelerou embora tivesse espaço para acelerar, e tentou se posicionar atrás do Asano.

 

Asano por sua vez diminuiu sua altitude e fez uma curva aberta, mantendo o momento da aceleração, e subiu para ficar atrás da Nagase. Ela, então, fez um loop alto e mudou de direção.

 

Porém, a Nagase perdeu o Asano de vista ao fazer essa complexa sequência de manobras.

 

“Que merda!”

 

Para recuperar o contato visual, ela tentou manter o Asano fora dos pontos cegos do avião, mas não funcionou. Mesmo com um cockpit transparente, se o alvo passa bem em cima da cabeça do piloto, fica difícil de mantê-lo em vista.

 

Sabendo estar fora da visão de Nagase ou não, dessa vez Asano virou rapidamente para ficar na frente dela, e então subiu para perder velocidade e ficar atrás dela.



 

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A voz de Mishima soou pelo rádio.

 

“Edge, Aster está na suas seis. Se você não conseguir se livrar dele, você perde.”

 

Ao olhar para trás, ela viu Asano se aproximar cada vez mais.

 

Nagase tentou se livrar do Asano forçando curvas para os dois lados, mas não deu certo. Asano lia os movimentos dela, e ao fazer curvas leves, evitava a perda de energia.

 

“Edge, chega. Hoje foi um teste preliminar. Todos vocês, voltem para a base.”

 

Nagase estava tão frustrada que quase rachou os dentes, de tão forte que os cerrou.

 

Dominar o combate aéreo significa se aproveitar de uma chance num instante. Nagase não continuou a perder.

 

Eles jogaram pega-pega oito vezes, e ela ficou atrás do Asano em duas ocasiões. Ela perdeu quatro vezes, e as outras duas foram empates técnicos.

 

Entretanto, nessas quatro derrotas, ela tecnicamente se livrou de seu perseguidor.

 

Ela sentiu a asa perder sustentação um pouco durante uma curva na qual o ângulo de ataque era excessivo, então levantou o nariz enquanto rolava para colocar o T-4 num superestol, perdendo muita velocidade e se livrando do Asano ao conseguir tal façanha. Quando ela chegou na base, portanto, recebeu um belo puxão de orelha do Mishima.

 

Isso pois Nagase fez era uma manobra estúpida que não era recomendada nem para as mais avançadas aeronaves, e era extremamente perigosa para o T-4.



 

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Se a gravação do T-4 ignorando as leis da aerodinâmica e girando feito pião sem nenhuma preocupação com a direção na qual estava indo fosse mostrada sem explicação, seria vista exclusivamente como um avião prestes a ir de cara no chão.

 

A oitava batalha entre Nagase e Asano terminou empatada.

 

“A partir dos voos de hoje, estaremos concluindo os exercícios de combate usando o T-4. Parece que tanto a Nagase quanto o Asano agora conseguem responder direito a uma simulação de combate.”

 

Mishima percebeu que a Nagase estava de punhos cerrados.

 

“Nagase, por algum acaso você está frustrada por ter mais derrotas que vitórias?”

 

“Claro.”

 

“Eu disse isso antes, mas o exercício de combate no T-4 não é uma competição pra ver quem é o melhor. É pra que vocês se acostumem com o formato de um exercício de combate. É bem diferente de uma situação de combate verdadeira. Você pode pensar na pontuação como algo secundário, por diversão.”

 

Ao ouvir que era por diversão, Nagase se frustrou ainda mais.

 

“Acabou a brincadeira. Amanhã, o ASF-X volta.”

 

Só se passou uma semana desde que eles voltaram para as Indústrias Pesadas Taiga.

 

“Não é meio antes do prazo?”

 

“Quando nós falamos do exercício de combate contra o Q-X, eles concordaram com nossas demandas excessivas. É bom que as expectativas sejam cumpridas.”



 

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Quando o Mishima contatou as Indústrias Pesadas Taiga, ele descobriu que o gerente que servia de intermediário para o Esquadrão Conjunto de Teste e Avaliação não sabia nada sobre o exercício de combate com o Q-X.

 

Isso era inimaginável.

 

Surpreso, o gerente perguntou a seus superiores, e descobriu que a maioria dos departamentos das Indústrias Pesadas Taiga sabiam do exercício de combate, o que o surpreendeu ainda mais.

 

Havia muita informação relacionada a segredos do Ministério da Defesa no desenvolvimento da ASF-X, mas devido à irritante necessidade de preservar tais segredos, a comunicação entre as divisões envolvidas era péssima, o que se devia a discrepâncias na comunicação.

 

Os ASF-Xs que voltaram das Indústrias Pesadas Taiga foram completadas de tal forma que até mesmo a Nagase e os outros estavam felizes.

 

Os sistemas de controle, que preocupavam a todos, tiveram suas modificações seguradas para algo mais moderado, e foram ajustadas para se equivaler ao nível do Zero um, que era o que os pilotos estavam mais acostumados. Era um ajuste feito tendo em mente o exercício de combate, que se aproximava.

 

A pedido do Ministério da Defesa, os sistemas de controle de armas e fly-by-light* receberam novos simuladores, para uso no exercício de combate.

 

*Fly-by-light - o equivalente ao fly-by-wire (movimentos da aeronave controlados por computador e não diretamente nos cabos hidráulicos) utilizando fibra óptica

 

Isso não era algo providenciado exclusivamente para o exercício de combate contra o Q-X, mas sim um sistema que recebeu pesados investimentos do Ministério da Defesa para desenvolver e treinar pilotos em novas aeronaves, inclusive o ASF-X.

 

O simulador interfere com o sistema de controle de armas e envia o status de armas equipadas para o centro de controle, e ao combinar isto com os dados de voo do transponder, o supercomputador do centro de controle recria a trajetória de mísseis e bombas num espaço virtual. Ele é configurado para determinar acertos de armas com nível incrível de precisão.



 

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Mas isso não é tudo. Se o ASF-X for detectado como tendo sido atingido, o computador calcula quais partes foram danificadas e qual é a extensão dos danos, e interfere com o sistema de fly-by-light para dar uma resposta realista aos controles. Obviamente, não há como simular anomalias aerodinâmicas como resultado de explosão, mas tornou possível recriar danos como falha numa superfície de controle e outras situações anormais com muita segurança.

 

Infelizmente, não sobrou nenhum F-2 para servir de mula, e a não ser por aeronaves puramente experimentais, o ASF-X será a primeira a receber este sistema.

 

As Indústrias Pesadas Taiga foram contra instalar um sistema que interferisse com os controles, mas o Ministério da Defesa estava confiante e determinado a testá-lo no ASF-X a qualquer custo. Se for bem na prática no ASF-X, poderia ser instalado em qualquer aeronave utilizada pelas Forças de Autodefesa - presentes ou futuras. Isso poderia aumentar a eficácia dos treinos de combate de forma explosiva no futuro.

 

Quando os ASF-Xs voltaram, a Nagase estava louca para pedir um exercício de combate contra o Asano nelas, mas devido à proximidade do exercício com o Q-X, o pedido foi negado.

 

Até mesmo voos de teste programados para continuar o desenvolvimento foram adiados para que a Nagase e o Asano pudessem receber treinamento especial.

 

Para aumentar a sua proficiência, voos no ASF-X foram restritos à Nagase e ao Asano. Oose e Sonoda só voavam quando os outros dois estavam de folga.

 

Zero Um e Zero dois, embora chamadas ambas de ASF-X, foram feitos como tipos de aeronave diferentes. Embora fosse pouco comum, Mishima deu à Nagase e ao Asano um avião para que melhorassem suas habilidades num curto período de tempo.



 

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O Zero Um ficou nas mãos do Asano, que era piloto da Força Aérea, e o Zero Dois ficou com a Nagase, que era da Marinha. Mishima então ordenou que os dois se acostumassem às suas respectivas capacidades de controle.

 

“Major Mishima, como vai a preparação para o exercício de combate?”

 

“Como pode ver, não há tempo o suficiente, major brigadeiro. Se você está se referindo ao tempo dado a nós, tanto os aviões quanto os pilotos estão indo muito bem. O Zero Dois não teve problema algum dos esperados de um protótipo. É difícil de imaginar que seja o primeiro tipo STOVL, dado o seu desempenho.”

 

“Perdoe-me o incômodo, mas esse exercício de combate está sendo um problema sério. Devido às circunstâncias, se o ASF-X perder feio, o programa de desenvolvimento em si pode sofrer as consequências.”

 

“Já que não temos dados sobre como o Q-X opera, não podemos imaginar uma tática de contra-ataque. Mas mesmo nesta situação, se o oponente fosse um F-2 ou até mesmo um F-15J, eu diria que não há motivo para preocupação.”

 

“Ótimo. Mas não force demais a barra. Não há substitutos para os aviões ou os pilotos.”

 

“Ouvi rumores de que o programa Q-X está indo muito bem. Eu não acredito que qualquer um dos lados seria afetado tanto assim caso ganhem ou percam.”

 

“Mas há um cara no lado inimigo para o qual não podemos demonstrar qualquer fraqueza.”

 

“Inimigo, né?”

 

“Se perdermos, discutiremos. Por precaução, eu andei fazendo preparativos do nosso lado. Apenas garanta a segurança dos aviões e dos pilotos. Se qualquer um dos dois tiver problemas, o desenvolvimento sofrerá.”



 

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No Japão, fazer testes de armas “vivas” em território nacional era algo inimaginável.

 

O grupo da Ala de Desenvolvimento Aéreo e Testes que subiu no teto de um prédio na base foi então lembrado da vastidão do território dos Estados Unidos.

 

Não havia lugar algum no Japão onde todo o terreno era plano, em qualquer direção, até o horizonte. Ao olhar com mais proximidade, havia uma cadeia de montanhas a oeste, mas já que estava distante, parecia um horizonte.

 

“Aqui não é meio perigoso, não?”

 

“Tem sempre a chance de que algo vá cair nas nossas cabeças, mas aqui é o melhor lugar.”

 

O oficial americano no corrimão apontou e gritou “ESTÃO DECOLANDO!”

 

Pessoas de ambos os países se juntaram ao redor do oficial, aglomerando-se no gradil, e olharam para a pista.

 

Nela, se encontram quatro Q-Xs alinhados com seus motores ligados. A maioria deles confundiu o taxiar dos drones para a pista e o seu alinhar como um procedimento de decolagem.

 

À medida que os oficiais da Força Aérea dos Estados Unidos olharam com interesse, eles começaram a decolar em ordem, com o primeiro tomando a liderança.

 

“E eles fazem isso tudo sozinhos?”

 

O pessoal da Ala de Desenvolvimento Aéreo e Testes respondeu de forma amigável à pergunta do oficial de alta patente estadunidense.

 

Os controles do Q-X são totalmente semi-autônomos. A ordem e o tempo entre as decolagens são programados pelo operador, mas os ajustes de motor e controles são determinados de forma automatizada.



 

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“Pelo jeito, ainda faz tudo assim como o comandado.”

 

Após terem decolado e formado no ar, os Q-Xs entraram numa formação que lembrava um diamante com um dos vértices apontando para a frente. Parece bem comum, mas criar esta formação com aviões a jato é surpreendentemente difícil. A distância entre cada avião era muito pequena, e dava para perceber que o controle do Q-X era extremamente avançado só de olhar.

 

Os Q-Xs, ainda em formação diamante, fizeram uma curva e um loop vertical. O seu vôo magnífico mais que compensava a aparência grotesca.

 

Os americanos faziam festa.

 

“Voos acrobáticos em formação também são possíveis, mas isso não é o nosso atual objetivo, então vamos para o evento principal.”

 

“Sim. Nosso operador deve estar ficando impaciente.”

 

Um caça a jato rapidamente mergulhou dos céus.

 

É uma aeronave não tripulada, usada como alvo pelas forças americanas.

 

Na verdade, era um jato antigo convertido para controle remoto, e embora não se comparasse aos caças modernos, era um avião de verdade, que tinha se envolvido em combate nas linhas de frente no passado.

 

“Nosso operador está a fim de fazer todo mundo chorar. Por favor, façam o melhor que puderem e não chorem. Dito isso, comece!”



 

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No momento em que o General McMillan anunciou o começo do exercício, o avião alvo acendeu seus motores e ativou seus pós-combustores. Agora com muito mais potência, o avião alvo quebrou a barreira do som quase imediatamente.

 

Por ter sido convertido em um drone, ele perdeu alguns equipamentos desnecessários e ficou mais leve e mais manobrável.

 

“Só vai durar dez minutos. Vocês não vão ficar nessa sacanagem de esperar até acabar o combustível, né?”

 

“Tem certeza de que podemos usar armas vivas?”

 

“Mas é claro! Nossos caras estão bem mais interessados nos mísseis japoneses do que no Q-X, pra falar a verdade.”

 

“Se é assim, prepare-se para ficar desapontado.”

 

De repente, Togura entrou na conversa.

 

O General se assustou de leve ao ver Togura, mas rapidamente se recompôs.

 

“Como assim, eu ficarei desapontado?”

 

“Hmm. Eu disse pro Kelley…, pro operador do Q-X, que ele não precisava usar os mísseis.”

 

Enquanto eles falavam, os Q-Xs subiram rapidamente, ainda em formação diamante, e ganharam altitude o suficiente para não serem vistos a olho nu. Ao alcançar altitude, eles se espalharam em quatro direções e desceram reto, entrando em voo supersônico.



 

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Os Q-Xs fizeram uma manobra estranha ao alcançarem cerca de 2000 m para nivelar, e então ativaram os pós-combustores. O motor do Q-X é um turbofan convencional, então sem eles não é possível voar acima da barreira do som.

 

Em voo supersônico em baixa altitude, os drones se aproximaram um do outro lançando anéis de fumaça branca. De forma precisa, os quatro Q-Xs cercaram o avião alvo.

 

Mesmo os quatro sendo supersônicos, o Q-X era bem mais rápido e era capaz de vencer utilizando sua manobrabilidade muito superior.

 

A velocidade supersônica do avião alvo não significava nada contra o Q-X. Não havia tempo para desviar, e dados alguns segundos, os quatro atravessariam por cima e por baixo do alvo de quatro direções diferentes a velocidade supersônica.

 

Atingida com quatro ondas de choque em rápida sucessão, o avião alvo deslizou para um lado e perdeu altitude, mas conseguiu por pouco recuperar o controle.

 

Porém, já não estava mais rápido que o som.

 

“Hmm. Isso requer muita habilidade.”

 

Togura parecia genuinamente fascinado com o fato de que o avião alvo não caiu.

 

Antes que alguém percebesse, os Q-Xs formaram na frente do alvo e depois de se espalharem, dois drones de cada lado vieram diretamente de frente para o avião alvo. Os Q-Xs atiraram suas metralhadoras de 12.7mm e fuzilaram o alvo. A direção do ataque foi considerada para que as linhas de tiro não apontassem para a base, mas ninguém percebeu.

 

O motivo pelo qual o avião alvo tomou tiros de todos os quatro Q-Xs não se devia ao fato de que ele era capaz de resistir a tal dano, mas sim que era mais rápido estraçalhá-lo no ar do que esperar que ele caísse.

 

 

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O avião alvo, soltando fumaça preta, caiu no deserto.

 

Quando os observadores olharam para cima, os Q-Xs já estavam voando em formação diamante sobre a base, fazendo grandes curvas para desenhar um grande círculo.

 

O General McMillan suava frio.

 

“...fantástico, eu devia te dizer. Isso foi mesmo semi-autônomo?”

 

Togura também olhou para os Q-Xs no céu.

 

“Provavelmente, no futuro será 100% automático. Mas infelizmente, esse tipo de eletrônicos de alta performance não existe ainda. A realidade é que atualmente, nosso “cérebro” é só uma massa de proteína que fica aí, incapaz de usar todo o seu potencial. Foi como o planejado, mas comparado ao duelo contra o F-2, o alvo não respondia a nada. A capacidade de aviões pilotados é formidável.”

 

O General esperava que isso pudesse continuar por toda a eternidade.

 

Ao mesmo tempo, era difícil acreditar que um humano controlava essas manobras. Se fosse um piloto a bordo, não haveria jeito de se mover daquela forma.

 

“A resposta foi muito rápida. Ainda mais para uma rede de satélites!”

 

“Exato. Isso também foi uma demonstração das capacidades da rede. O operador do Q-X está no Japão.”

 

Quando o Togura disse isso, os americanos ficaram inquietos.



 

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Os EUA parcialmente desenvolveram esse temível sistema de controle. A rede de satélites necessária para o controle era a mesma providenciada pelos Estados Unidos.

 

O Q-X era um programa conjunto extraoficial entre dois países. Se o Departamento de Defesa estiver satisfeito com o desempenho, o Q-X pode até ser adotado pelos EUA. Enquanto eles tivessem visto a demonstração de hoje e não houvessem problemas críticos escondidos, os burocratas pulariam de cabeça no Q-X.

 

Porém, o General McMillan tinha dúvidas e medo a respeito de utilizar esse drone para a força aérea de seu país.

 

Oficialmente, várias cópias do vídeo documentando o combate entre os Q-Xs e o avião alvo foram feitas, e postas sob sigilo.

 

Mas, devido ao trabalho de um traidor, durante o processo de cópia, uma versão adicional foi feita sem o conhecimento dos outros. Esta cópia foi posta sob o controle de alguém que trabalhava para o governo de outro país, e foi levada para fora dos Estados Unidos.

 

As capacidades de combate do Q-X foram vistas com uma enorme reação no país dessa pessoa.

 

Mas uma coisa sobre o Q-X as incomodava.

 

Eles não possuíam o Q-X sob seu comando.

Acidente
 

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Treinamento de Combate Aéreo, o qual simula um confronto de verdade, é abreviado como ACT*.

 

Porém ao adicionar o D de dissimilar, o evento é abreviado como DACT* e o combate fica mais realista. Isso é porque num combate real,  “o inimigo” voa e usa táticas diferentes dos aliados.

 

O TCA que acontece num mesmo esquadrão está propenso a resultar em um mesmo padrão, mas ao treinar com esquadrões com aeronaves diferentes, a proficiência de um esquadrão aumenta drasticamente.

 

Porém há um paradoxo.

 

A fim de medir as competências e habilidades de cada piloto, é necessário compará-los quando as condições são iguais. E se o tipo de aeronave que eles enfrentam é diferente, é extremamente difícil fazer uma comparação justa.

 

Na realidade, um DACT é conduzido com suposições e regras firmes, portanto geralmente os resultados não se igualam aos de um combate real. Em muitos exercícios de treinamento, aeronaves de treinamento já derrubaram caças avançados com tecnologia de ponta.

 

O F-15 tem um histórico formidável de ter derrubado mais de 100 aeronaves em combates reais, com um ou dois F-15 danificados e “talvez” um abatido. Porém, o seu desempenho no TCAD não é tão bom assim. Claramente, não é um acontecimento raro perder para uma aeronave menos potente.>>

 

* ACT - Air Combat Training (Treino de Combate Aéreo)

** DACT - Dissimilar Air Combat Training (Treino de Combate Aéreo Dissimilar)



 

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No combate real, pilotos procuraram as condições mais vantajosas possíveis e então começam a atacar. Pode-se dizer que a capacidade de atingir essas condições é uma medida de desempenho para um jato de combate. No entanto, a realização de exercícios de treinamento nessas condições raramente é necessária.

 

Ocasionalmente, o DACT coloca intencionalmente os planos de classificação mais baixa em condições vantajosas, e os envolvidos aprendem que, nessas condições, mesmo as aeronaves de nível mais baixo podem ser uma grande ameaça.

 

Compreender que a vitória durante o DACT não é prova de que a superioridade da pessoa na realidade é necessária.

 

É apenas um "treinamento que simula uma luta real", destinado a aumentar a habilidade do piloto. Não se deve esquecer que, embora pareça, eles não estão em combate real.

 

Mesmo caças a jato são criados com certos tipos de pressupostos em mente, e é raro que essas suposições produzam exatamente a mesma aeronave.

 

Portanto, não importa quão “condições iguais” sejam propostas, é impossível ser igualmente justo para todos os diferentes tipos de aeronaves, e aquelas condições escolhidas como as mais justas estão freqüentemente longe da realidade.

 

Determinar os méritos de um jato de combate por meio do DACT é fundamentalmente impossível.

 

No entanto, quando os méritos de um avião não podiam ser determinados e precisavam ser comparados, o DACT era uma medida extremamente fácil de entender para comparação.



 

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“A conopi mudou?”

 

Ao ver o Zero Dois, Nagase notou que a caponi agora tinha um cor diferente de antes.

 

“Eu acho que você não entendeu ainda. É um novo material que absorve ondas eletromagnéticas. Ele melhora as características furtivas da aeronave.”

 

“Não adicione nada de estranho antes do confronto que teremos em breve.”

 

“Fique sabendo que não fui eu. Mas temos um confronto sério. Os engenheiros provavelmente queriam adicionar algo que lhe desse a vantagem.”

 

“É um pouco estranho.”

 

O mecânico forçou um sorriso enquanto estava no pátio de aeronaves.

 

As canopis de caças são feitas de um vidro orgânico como acrílico ou policarbonato, e é permeável não apenas a luz, mas também às ondas eletromagnéticas. Isso é um perigo pois ondas magnéticas podem ser refletidas dentro do cockpit e serem detectadas por radar. No caso de caças onde a visibilidade tem sua importância em combate, uma grande proporção da estrutura é a canopi, e ondas eletromagnéticas refletidas ao bater no assento do piloto não podem ser ignoradas.

 

Portanto, aeronaves stealth tem um revestimento feito a base de ouro, já que ouro é um bom condutor, para absorver as ondas eletromagnéticas.

Como a canopi do ASF-X ainda não foi finalizada, ela deve ter sido revestida com um material mais barato que ouro. Existem vários rumores sobre quais materiais seriam usados, de um supercondutor de temperatura ambiente sendo desenvolvido pelas Indústrias Pesadas Taiga, a um material condutor orgânico.



 

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De qualquer maneira, parece que a canopi incorpora tecnologia e materias que tem características furtivas melhores do que as anteriores.

 

Nagase pensou que a nova tintura não afetaria o uso prático da aeronave e a aceitou. Mesmo que ela quisesse mudar a canopi, uma parte novo não chegaria a tempo.

 

Após ela confirmar que o mecânico tinha ido, Nagase começou a chegarem da aeronave usando a energia reserva.

 

Ao chegar a hora do DACT, as emoções de Nagase se intensificaram.

 

Suas emoções não se acalmaria pois ela não conseguia parar de pensar sobre o embate contra Asano. Nagase acreditava que o confronto simulado com o T-4 o qual determinou que ela estava mais perto de perder do que de ganhar havia sido “inconclusivo.”

 

Até o combate simulado de hoje contra o Q-X, ela não conseguia se decidir em qual era seu objetivo: abater o próprio Q-X ou ganhar contra Asano ao derrubar mais Q-Xs.

 

“Não!”

 

Nagase bateu em suas próprias bochechas para se motivar.

 

Vamos focar apenas em ganhar do Q-X.

 

Ela não poderá vencer o oponente numa batalha se não conseguir controlar suas emoções.

 

Segundo os dados entregues pela Divisão de Desenvolvimento e Testes ao Esquadrão Conjunto de Avaliações de Teste, havia uma característica de voo do Q-X que era difícil de acreditar.



 

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O ASF-X tinha uma manobrabilidade excelente, mas o Q-X era superior ao ASF-X em velocidades subsônicas. Em velocidades supersônicas, acreditava-se que o ASF-X era superior, mas aparentemente o Q-X usava várias manobras de estol para amenizar suas deficiências nestas velocidades. No combate simulado contra o F-2, ele conseguiu evadir a maioria dos ataques do F-2 feitos em velocidades supersônicas.

 

No final, o movimento do Q-X era muito único e não se enquadrava nos movimentos padrões de caças a jato convencionais.

 

Anteriormente, havia sido previsto que até aeronaves de caça de alto performance teriam dificuldades em abater aeronaves militares como patrulhas anti-submarinos devido às baixas velocidades, e poderia ser dito que o Q-X era um oponente difícil num combate dissimilar.

 

As manobras de ataque e evasão do Q-X são baseadas no julgamento do operador das ameaças e cada movimento é uma resposta automática. A perda humilhante contra F-2 no ano passado foi considerada como a consequência do método de controle e do sistema automático de manobras imperfeito, mas essas falhas aparentemente haviam sido superadas.  

 

As habilidades de evasão do Q-X eram excelentes, e a Divisão de Desenvolvimento e Testes concluiu que era impossível derrubar o Q-X com mísseis anti-aeronaves da geração passadas, os quais ainda são usados por países de terceiro mundo, desde que eles não sejam disparados num ataque de saturação. Considerando que o Q-X poderia ser construído no mesmo nível de custo de um SAM*, isto seria um problema grave para qualquer país que tivesse o Q-X como seu inimigo.

 

Do outro lado, parecia que as características de ataque eram relativamente normais, pelo menos de acordo com o que havia sido confirmado. Porém, aparentava que o Q-X poderia atacar o F-2 sem nenhuma dificuldade.

 

*SAM - Surface to Air Missile (Míssil Terra Ar)



 

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Nos testes de ataques contra alvos não-humanos nos Estados Unidos, o Q-X mostrou um método de ataque diferente, mas aparentemente foi uma demonstração feita dado a baixa capacidade de evasão do oponente. No combate simulado contra o F-2, o Q-X usou métodos de ataques comuns ao perseguir o inimigo e atacá-lo após obter uma posição vantajosa. Porém, ele se aproximava e atacava perigosamente, então as manobras de evasão que o F-2 poderia fazer eram limitadas.

 

No geral, pelo que se pode determinar com os dados, a aptidão de evasão do Q-X era superior a sua aptidão de ataque.

 

Esta determinação fazia com que o combate simulado de hoje ficasse mais complicado.

 

O ASF-X seria equipado com um novo míssil ar-ar o qual ainda está em desenvolvimento. Mas já que os acertos de mísseis serão determinados pelo simulador neste confronto simulado, decisões precisas não poderiam ser feitas sobre um míssil cujo desenvolvimento ainda não foi finalizado.

 

Como resultado da discussão, o voo seria realizado na suposição que mísseis já existentes seriam utilizados. Estes teriam uma performance inferior comparado aos mísseis novos. O Q-X também seria equipado com mísseis existentes, mas esses haviam sido considerados originalmente para o uso com o Q-X, então isso pode ser considerado como uma desvantagem para o ASF-X.

 

Num DACT, o objetivo é que pilotos ganhem experiência de um combate aéreo com aeronaves de características diferentes, e que eles bolem táticas superiores num confronto com aeronaves diferentes. O DACT raramente é feito para determinar a performance relativa de aeronaves.



 

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Geralmente, não existem negociações num DACT sobre qual lado começa com condições superiores antes do começo de qualquer treino.

 

Porém, apenas hoje, houve uma exceção. Isso porque todos sabiam que o resultado do exercício de combate de hoje haveria um grande impacto no desenvolvimento de ambos os programas.

 

O major-brigadeiro Sato achava imprudente que esses resultados fossem a base do DACT, mas não havia nada que ele pudesse fazer. Ele não sabia se era uma consolação ou não, mas parecia que a equipe por trás do Q-X também estava apreensiva.

 

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Haviam indivíduos da Divisão de Desenvolvimento e Testes no centro de controle. Burocratas do governo central também estavam presentes, portanto a sala estava cheia.

 

Com exceção dos integrantes do Ministérios da Educação, Esporte, Ciência e Tecnologia (MEXT), a presença de vários burocratas do Ministério das Finanças indicava que haviam problemas com o combate simulado.

 

“Professor Togura, as preparações do Q-X foram finalizadas?”

 

“Não há problema algum. Não tenho nenhuma objeção sobre as suas condições.”

Togura respondeu com um leve sorriso como de costume. Seus óculos escuros eram tão escuros que ficava difícil determinar a expressão de seus olhos na sala.

 

Como ele disse, não havia problema algum, e Togura não fez nenhum ajuste sequer no Q-X durantes as preparações. Falando objetivamente, poderia se dizer que a completude do Q-X como um sistema estava bem alta.



 

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Caso não tivesse nenhum efeito no programa do ASF-X, o Q-X era um projeto que qualquer um gostaria que fosse completado.

 

“Se esperarmos demais, Kelley provavelmente terá problemas, e ele já está em standby. Vamos nos apressar com as preparações do ASF-X.”

 

“Está tudo bem. Ainda assim, o Q-X é capaz de voar por no máximo 20 horas e nós temos equipamento preparado para que não precisemos trocar o operador durante este intervalo de tempo.”

 

Enquanto dizia isso, Togura encostou sua bengala numa caixa de fibra de vidro do tamanho de uma mesa grande. Togura até acertou com força, e Sato disse.

 

“Você é bem imprudente ao bater. O Kelley ainda não está dentro?”

 

“Não há problema algum. Nós a construímos para ser robusta.”

 

O problema não é esse, pensou Sato. Dentro da ‘caixa’ estava o operador do Q-X, Kelley, o qual vestia um traje especial. Satp também era incomodando quando Togura dizia que os operadores seriam ‘trocados’ ao invés de ‘alternados.’

 

Kelley era o assistente que Togura trouxe de sua universidade. Sato havia falado com ele umas duas vezes, ele era um jovem muito inteligente.

 

Ao perceber o olhar preocupado de Sato, Togura continuou a explicar.

 

“Não se preocupe. Esta caixa é bem robusta e nós consideramos a proteção do operador. Infelizmente devido às circunstâncias da programação, o treino de outros operadores não progrediu muito comparado ao nível do Kelley.”



 

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Sato estava genuinamente preocupado que se esse homem pudesse treinar vários operadores ao mesmo nível, ele faria experimentos que sacrificariam Kelley.

 

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O sistema de controle do Q-X é um aparato chamado interface quasi-panesthesia*, a qual manda informações ao operador. Ao usar óculos e fones especiais, os sentidos de visão e audição do operador são isolados e ele só recebe informações pertencentes ao voo do Q-X.

 

Dentro da caixa onde Kelley está, o volume do equipamento eletrônico que conecta o dispositivo de comunicação não é muito alto, e a maior parte do volume serve para isolar o interior de estímulos exteriores. Mesmo ao bater na caixa como foi feito antes, o operador nãoé capaz de sentir ou ouvir nada.

 

A maior parte dos comandos do operador é feita por um sistema que usa pensamentos para determinar as intenções do operador ao detectar mudanças nas ondas cerebrais, fluxo de sangue no cérebro, e potencial mioelétrico. Devido a limitações na tecnologia, as informações recebidas são rápidas porém não tem detalhe o suficiente, portanto um par de luvas que detectam movimento dos dedos e uma interface ativada por voz são usadas como sistemas de controles auxiliares.

 

Pode até parecer que todas essas tecnologias são absurdas, mas graças as pesquisas feitas no século 20, essas tecnologias são usadas regularmente em institutos de pesquisas reais hoje em dia. A excelência do sistema de controle do Q-X está no método de integração de todas interfaces diferentes e sua utilização.

 

*Interface onde a consciência e percepção é quase total.



 

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Togura começou sua pesquisa sobre esse sistema com a finalidade de controlar robôs.

 

Porém, naquela época com o orçamento e tecnologia disponível a Togura, ele não tinha ideia sobre quantos anos seriam necessários para completar sua pesquisa, então Togura decidiu fazer com que sua pesquisa se aplicasse a sistemas mais simples ao invés de robôs. Isso o levou ao atual sistema de controle do Q-X.

 

A maioria dos drones com sistemas de controle de alta performance tem operadores que os pilotam com o ponto de vista do piloto. O sistema de Togura funciona da maneira oposta e os operadores pilotam o Q-X com um ponto de vista ao seu exterior. Porém ao invés de olhar para cima a partir do solo, o operador joga seu corpo e voa livremente sobre o campo de batalha e comanda o Q-X com uma vista de pássaro.

 

Na prática este tipo de ponto de vista não é disponível a comandante algum.


 

O novo sistema de armas tem fusão de sensores funcionais, onde os dados coletados pelos sistemas de armas existentes no campo de batalhas são gerenciados de maneira uniforme, e fornece informação que pode ser usada para criar uma vista do campo de batalha para comandantes e combatentes. Porém, mesmo com um sistema desse, é impossível ver todo o campo de batalha.

 

Isso é porque o piloto está preocupado com o controle de sua própria aeronave, e junto com o comandante, deve focar a maior parte de sua atenção no ambiente ao seu redor.

 

O sistema de Togura remove humanos do ambiente onde eles estão. Isso não significa que eles se tornam aeronaves. Ao contrário, ele tem finalidade de fornecer um campo de visão superior com uma vista objetiva no domínio da fronteira tecnológica.



 

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Era óbvio para qualquer um um sistema que tirasse o lado humano do operador seria problemático, mas como Kelley era um exemplo de sucesso, este lado problemático não recebeu muita atenção.

 

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“Edge, decole agora.”

 

Inesperadamente para Nagase, Mishima a designou como líder do elemento, apesar do resultado do confronto simulado contra o T-4.

 

Normalmente, um veterano é que serve como líder de elemento enquanto os novatos são designados como ala. O histórico de Nagase como piloto de caça era um pouco mais longo, mas Nagase aceitava o fata que isso não era o suficiente para ela ser considerada uma veterana.

 

Atrás do Zero Dois de Nagase, o Zero Um de Asano decolou e circulou ao redor da base algumas vezes.

 

Ao olhar ao redor, uma formação de dois Q-X estava voando um pouco acima deles. Ao ver o Q-X, Nagase teve a impressão que “que eles pareciam brinquedos.” Sendo consideravelmente menores que o ASF-X, o Q-X parecia um modelo em miniatura, e sua construção parecia um tanto grosseira quando comparado ao caça normal.

 

Dois T-4 decolaram para servir como escoltas.

 

Depois que os escoltas entraram em formação, as seis aeronaves não-tripuladas e tripuladas foram rumo a área de testes. Quatro escoltas da Base Aérea de Misawa da Força de Defesa do Norte também foram rumo ao espaço aéreo de testes.



 

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Após chegar no espaço aéreo designado, o ASF-X e o Q-X se separaram indo ao norte e sul para aumentar a distância entre eles.

 

O embate entre as duas aeronaves seguia o estilo de um duelo ocidental [1], onde elas começariam foram de alcance umas das outras, aí elas poderiam se aproximar e começar a atirar quando quisessem.

 

Ajuda de um AWACS ou uso de mísseis de longa distância estava proibido. O Q-X não poderia ser equipado com mísseis de longa distância, e ainda não tinha sido equipado com um sistema de conexão com AWACS. Portanto, pode-se dizer que estas eram restrições que davam ao Q-X uma vantagem.

 

“Aqui é Aster, eu perdi os dois agressores do meu radar.”

 

“Aqui é Edge, perdi contato dos agressores.”

 

De um lugar distante dos operadores, o major-brigadeiro Sato perguntou ao pessoal da Divisão de Desenvolvimento e Testes.

 

“Como é que está para a sua equipe?”

 

“Umm, eu não posso… Professor Togura. Tudo bem se confirmarmos com ele?”

 

Togura não mostrou nenhum sinal de oposição, e instruiu os operadores a anunciar o status da equipe do Q-X.

 

Era um pouco estranho que Kelley, o qual estaria respondendo, estava na mesma sala. Porém, o sistema estava instalado de uma maneira em que Kelley só podia responder pelo sistema de comunicação.

 

“Aqui é Kelley, Q-1 e Q-2 já perderam os dois ASF-X de vista.”



 

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Havia uma certa comoção no centro de controle.

 

O Q-X deveria ser superior em termos de características furtivas, mas a performance do radar é consideravelmente superior no ASF-X.

 

“Vamos começar então.”

 

A declaração de Sato foi transmitida imediatamente para todos os pilotos no ar e para Kelley, o combate aéreo simulado havia começado.

 

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Nagase começou a ganhar altitude silenciosamente. Asano a seguiu.

 

Esta tática havia sido decidida anteriormente.

 

Fundamentalmente, o ASF-X detinha a vantagem da manobrabilidade em altitudes mais elevadas.

 

Porém, o Q-X pode manobrar ignorando a força-g e os perigos da aceleração, então os ASF-X devem ser cuidadosos em qualquer altitude.

 

Nenhuma conclusão foi alcançada se seria melhor obedecer os básicos e lutar juntos como um elemento, ou ter cada aeronave lutando separadamente. Era uma questão de manter a formação durante uma briga entre aeronaves de alta performance num conflito de curta distância onde ataques de canhões seriam efetivos. Isso raramente aconteceria no mundo real.

 

Porém, essa é uma boa pergunta para refletir no combate simulado de hoje.

 

No confronto simulado contra o Q-X, o número de abates era mais alto para o ala do que para o líder dos F-2.

 

Os pilotos escolhidos sempre eram os melhores do esquadrão, então não poderia ser por falta de habilidade do ala.



 

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É provável que como tanto os aliados quanto os inimigos possuem alta manobrabilidade, os alas teriam a desvantagem se tentassem seguir seus líderes.

 

Acreditava-se que o método normal de combate do Q-X era ter a aeronave mais próxima do inimigo agir como o atacante e ter a outra aeronave agir como suporte. Mesmo contra um elemento ou voo controlado por humanos, as funções são trocadas dependendo da situação, mas já que o Q-X não é pilotado e todos são exatamente iguais, um único operador os controlando pode tomar as decisões sobre a troca de funções.

 

“Kelley, se você achar os agressores eu peço que você anuncie isso.”

 

“Aqui é Kelley, eu anunciarei assim que detectar os ASF-X. Porém como as aeronaves de escolta entram no meu campo de vista de vez em quando, pode haver casos em que meus anúncios estejam atrasados.”

 

Mishima torceu seu pescoço.

 

“O que isso significa?”

 

Togura respondeu a sua pergunta.

 

“As condições para esse combate simulado são más. Já que a informação dos transponders das aeronaves de escolta não foram dadas ao Q-X, sinais de aeronaves detectadas pelo sistema óptico do Q-X devem ser analisados para determinar se as aeronaves são hostis ou não. Desta vez, sabemos que o inimigo é apenas o ASF-X e não os T-4 de escolta, então ajudaria se pudéssemos fazer a determinação semi-automaticamente.”



 

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Mishima estava genuinamente impressionado que os escoltas ao redor do espaço aéreo poderiam ser detectado pelo sistema óptico apesar da longa distância. Os ASF-X que estão voando muito mais perto devem ser fáceis de encontrar, e provavelmente devem ser encontrados em breve.

 

Para pilotos humanos, isso pode ser inesperado, mas o sistema óptico passivo do Q-X tinha uma capacidade de detecção excelente. Isso porque ao contrário do olho humano, ele pode mudar de um ângulo amplo para um zoom bem ampliado imediatamente.

 

Na realidade, as câmeras das aeronaves de escolta usam informações mandadas pelos transponders para filmar as quatro aeronaves voando no espaço aéreo com precisão. O sensor óptico do Q-X não é inferior aos das câmeras das aeronaves de escolta.

 

O operador, o qual olha o campo de batalha de cima ao invés do ponto de vista de um piloto, está ciente das mudanças no campo de visão e não se confunde.

 

“Aqui é Kelley, eu detectei um ASF-X.”

 

Como o combate simulado é conduzido de maneira em que cada elemento luta sem suporte, as informações recebidas pelo centro de controle não podem ser comunicadas a Nagase.

 

Nagase e Asano silenciosamente procuravam no céu qualquer traço dos inimigos.

 

Com suas limitações humanas, ambos não podiam ver as aeronaves de escolta pois estavam muito longe. Desta vez, a curta distância tornou-se uma vantagem para os humanos. Nagase viu algo se mexer um pouco no seu campo de vista, ela respondeu agilmente.

 

O Q-X que havia detectado Nagase e Asano anteriormente estava em uma altitude mais elevada.



 

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Porém, ele não havia recuperado a velocidade que perdeu enquanto ganhava altitude. Com ambos os lados em termos relativamente iguais a luta começou.

 

“Aqui é Edge, eles estão se aproximando pela frente. Vou iniciar o ataque.”

 

Os dois elementos começaram a se aproximar frente a frente.

 

Ambos os lados dispararam seus mísseis ar-ar na realidade virtual enquanto passavam um pelo outro.

 

Nagase e Asano fizeram barrel-rolls imediatamente para evadir os mísseis vindo da esquerda e direita. Em contrapartida, um Q-X fez um yo-yo para cima e o outro fez um para baixo, assim trocando velocidade e altitude para evadir os mísseis verticalmente. Os mísseis foram para direções diferentes de seus alvos originais.

 

O estado da batalha foi recriado numa grande tela no centro de controle, complementado com a trajetória dos mísseis no espaço virtual. A tela utilizava uma tecnologia de sensor de fusão bem estável, mas para aqueles que não estavam acostumados a ver imagens não-editadas não sabiam o que estava acontecendo. Porém, aqueles com o mínimo de conhecimento da situação não podiam esconder sua admiração pelo fato das quatro aeronaves terem evadido os mísseis ar-ar;

 

“Eles passaram frente a frente, então a velocidade relativa estava muito alta. Não tinha tempo o suficiente para os mísseis corrigirem suas trajetórias.”

 

Sato comentou isso, mas todos sabiam que a situação não era tão simples assim para ser explicada desta maneira.

 

“Mesmo assim, é impressionante, desviando de todos os mísseis.”

 

Um operador monitorando o espaço virtual do combate simulado corrigiu o comentário de Sato.

 

“Antes das aeronaves se cruzarem, o Q-1 usou seu canhão. O Zero Dois foi atingido.”



 

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Os observadores começaram cochichar.

 

“Os danos no Zero Dois foram infligidos no seu sistema elétrico. Isso não afetará sua manobrabilidade.”

 

O cockpit de Nagase não mostrou nenhum sinal de sua aeronave ter sido atingida. Ninguém percebeu que isso na verdade tinha sido o resultado de sua aeronave simulando os efeitos dos danos. Nagase continuou a voar sem saber sobre o estado de sua aeronave.”

 

Após confirmar que havia desviado do míssil, Nagase fez a manobra Immelmann para mudar sua direção em 170 graus. Depois de se separar horizontalmente, Asano fez um Split-S, one mudou sua direção em 170 graus ao fazer um loop para baixo. Falando grosseiramente, Nagase dava importância à eficiência, e Asano à velocidade.

 

Enquanto isso, o Q-X aumentava sua potência sem utilizar o pós-combustor enquanto virava com todo seu potencial.

 

O ato de suplementar a velocidade com aceleração e com uma virada contínua é chamado de uma virada sustentada.

 

Uma virada sustentada é importante para uma aeronave, mas quando comparada com razões de curvas sustentadas, não há muita diferenças entre caças da segunda guerra mundial com caças modernos de hoje em dia. Claro, isso não é só por falta de progresso na aerodinâmica das aeronaves ou nas tecnologias de motores. É porque caças modernos são muito mais rápidos e portanto eles viram na mesma razão, então a força-g não é tão alta.

 

Máquinas são construídas robustamente de acordo com sua performance, mas o mesmo não pode ser dito sobre seus pilotos. Um piloto não sobreviveria se ele viajasse nas mesmas velocidades que os motores poderiam produzir numa curva. Portanto, até caças modernos não podem continuar a virar até sua velocidade máxima de virada sustentada. Não adianta ter uma habilidade que não pode ser usada, então a habilidade inútil de virar extremamente rápido foi abandonada durante o design da aeronave.



 

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O Q-X não tripulado havia sido projetado para ter uma razão de virada que nem se compara a aeronaves tripuladas. Como resultado óbvio, o Q-X mudou de rumo antes que Nagase e Asano tivessem mudado de direção e começassem a ganhar altitude.

 

Nagase já sabia da diferença na habilidade de virar desde o começo, mas ela percebeu outro ponto problemático que já era conhecido. Na primeira manobra evasiva, Nagase e Asano se separaram, mas os Q-X se recuperaram em formação. O trabalho em equipe na formação dos Q-X é bom, pois ambos são controlados pelo mesmo operador.

 

O ASF-X era claramente superior em aceleração e velocidade máxima em vôo nivelado, mas é difícil obter vantagem em combate aéreo com essas características. Não importa o quão rápido seja o ASF-X, não é tão rápido quanto um míssil ar-ar, então mostrar as costas para o inimigo era uma tolice.

 

“Edge, aqui é Aster, vou fechar e atrair os agressores. Fique atrás de mim.”

 

O Zero Um de Asano, tendo encurtado a distância entre os Q-Xs, subiu enquanto se virava para provocar os inimigos.

 

"Esse cara!"

 

Eu sou o líder do elemento, pensou Nagase, mas não havia tempo para mudar os planos.

 

O Q-X aceitaram a provocação de Asano, e ambos começaram a perseguir Zero Um por trás. Nagase acompanhou os movimentos das três aeronaves com os olhos e tentou virar para ficar na traseira do Q-X.



 

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No entanto, o movimento de Nagase foi sentido pelos Q-Xs. O Q-X pode analisar várias direções simultaneamente com suas várias câmeras instaladas nele. Além disso, ele quase não tem pontos cegos. O operador pode procurar por inimigos sem se esforçar e ver apenas os resultados em uma visão estereoscópica.

 

Kelley anunciou que os Q-Xs haviam adquirido tanto Zero Um e Zero Dois na sala de controle, então Mishima e Sato acompanharam os eventos da luta simulada com um suor frio.

 

"Magnífico. Esses dois têm intuição e habilidade muito superiores a qualquer piloto que já enfrentamos até agora! ”

 

Estas palavras de louvor vieram de Togura.

 

"Você está bem relaxado, professor Togura."

 

"Eu não estou mais relaxado. No entanto, com esse tipo de inimigo formidável, eles provavelmente ajudarão a identificar os pontos fracos do Q-X. Isso nós ajudará no planejamento de táticas mais completas.”

 

Togura estava falando sério.

 

“Nesta situação, Kelley provavelmente tentará abater Zero Um e Zero Dois ao mesmo tempo. Mas isso é provavelmente um erro. Num confronto um contra um, os pilotos do ASF-X têm uma grande vantagem.”


 

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No instante em que Nagase entrou em um curso para perseguir os Q-Xs, um deles de repente mudou de direção 180 graus, mantendo o vôo nivelado. Depois de mudar de direção, ele apontou seu nariz para baixo e subiu. Isso era extremamente antinatural, mas isso era porque as forças inerciais ainda estavam atuando e por isso o Q-X estava voando na direção oposta a onde o nariz estava apontando.

 

Nagase viu um Q-X desacelerar, se aproximar e disparar um míssil ar-ar. A velocidade relativa era menor do que antes, então ela esperava que fosse atingida, mas o Q-X desviou do míssil como se estivesse se curvado acima dele. Esse não era o modelo mais novo, mas o campo de visão do rastreador no míssil ar-ar é bem grande. No entanto, se o alvo desaparecer completamente o míssil perderia seu rastreamento como seria de se esperar.

 

Nagase clicou a língua. Isso porque, se ela estivesse um pouco mais perto, o míssil poderia explodir usando seu fusível de proximidade e danificá-lo, em vez de ser tentar atingir o alvo diretamente.

 

Atuando mais rápido que o Zero Dois e o Q-X passando um pelo outro, Nagase tentou ficar atrás do Q-X ao rolar para cima enquanto girava, mas ela não se deu bem. O Q-X, que apontava artificialmente sua cauda na direção para onde se movia, fazia movimentos que iam contra os instintos de Nagase, e não permitiu que Nagase ficasse na sua cola.

 

Mas Nagase também não deixou o Q-X ficar na sua cola.

 

No meio desse combate aéreo intenso, Nagase se lembrou de sua luta simulada com Asano. Está tudo bem, esse cara não é tão formidável quanto o Asano.

 

"Aqui é Kelley, eu perdi o ASF-X que estava sendo perseguido."

 

Desconsiderando o duelo com Zero Dois, algo não estava certo em perder de vista o Zero Um que estava sendo perseguido de forma agressiva.



 

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Sagi se aproximou de Togura e perguntou em voz baixa.

 

"Togura, o que está acontecendo?"

 

"Eu não sei. Os sensores ópticos do Q-X escaneiam seu campo de visão em ciclos de menos de 0,5 segundo, então, teoricamente,o Q-X poderia perder o alvo se perdesse a visibilidade durante esse período. ”

 

"Então, foi isso que aconteceu!"

 

Togura olhou para o rosto de Sagi.

 

“Isso é bem improvável. A razão pela qual esse evento teoricamente previsto foi ignorado foi porque se acreditava que essa situação nunca aconteceria. O Q-X é configurado de forma que quando o oponente estiver se movendo rapidamente, ele estreitará seu campo de visão e não permitirá que ele perca o rastro do inimigo. É impensável que o Q-X, que é capaz de escapar dos mísseis, perca uma aeronave tripulada que se mova lentamente de vista.”

 

No entanto, na realidade, há casos em que os olhos do Q-X, que nunca perdem o rastro de mísseis velozes, poderiam perder de vista aviões tripulados que se movem lentamente.

 

Ao monitorar todo o céu em alta resolução, a quantidade de dados que deve ser processada é muito grande. O Q-X alivia parte do estresse ao não olhar para áreas onde não há mudanças. Mais especificamente, ele escaneia dentro de seu campo de visão e não continua analisando áreas onde as alterações são pequenas. Em outras palavras, não olha para as coisas que estão se movendo abaixo de uma determinada velocidade.


 

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Então, como o operador está olhando para a visão tridimensional virtual criada a partir de informações quando o Q-X estava olhando diretamente para o alvo, o operador não é mais capaz de ver toda a área corretamente. Depois de tomar cuidado e procurar atentamente, ele percebeu que estava olhando para o espaço vazio onde a aeronave costumava estar.

 

Na verdade, animais, incluindo humanos, só olham para coisas que estão se movendo e mudando. Mais de noventa por cento das informações usadas para criar imagens virtuais vistas pelo cérebro humano não vêm do passado e nem da visão mais atual. É uma tecnologia racional de processamento de imagens que foi inevitavelmente adquirida no processo da evolução.

 

Asano, que previu isso a partir da capacidade dos circuitos satélites, se moveu o mais lentamente possível até que o Q-X encurtasse a distância. Determinar a velocidades em que ele poderia escapar do Q-X foi um tiro no escuro, mas Asano foi capaz de superar o Q-X com sucesso.

 

Uma vez que perde o alvo, uma aeronave não tem olhos suficientes para rastrear o alvo. No entanto, a outra aeronave estava à mercê das capacidades e manobras do ASF-X que levaram o físico e os reflexos de Nagase aos seus limites.

 

Foi um erro de Kelley se dividir entre as duas aeronaves. Nesta situação, não havia margem de tempo para reunir os dois Q-Xs.

 

O operador monitorando o espaço virtual do simulador de luta simulada continuou anunciando a situação da luta enquanto ela se desenrolava.

 

“Q-2 foi abatido pelo canhão por Zero Dois”.

 

“Zero One disparou um míssil ar-ar com LOAL*. Nós não podemos detectar Q-1.”

 

"Q-1 foi abatido pelo míssil ar-ar do Zero One”.

 

Vários dos envolvidos no programa ASF-X deram uma salva de palmas no centro de controle.

 

*Lock On After Launch (Travamento De Mira Após o Disparo).



 

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No entanto, o major-brigadeiro Sato lembrou que os eventos na segunda metade do confronto eram todos de acordo com as previsões da Togura e ele se sentiu levemente ameaçado.

 

Togura foi capaz de compreender os problemas táticos do Q-X antes da conclusão da luta. Se lutassem novamente, provavelmente não conseguiriam vencer da mesma maneira. Esse homem é o verdadeiro inimigo do ASF-X, não os jatos de combate tripulados, ele pensou.

 

O confronto entre aeronaves tripuladas e não tripuladas que decidirão o futuro dos jatos de caça provavelmente continuará por muito tempo.

 

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“Aqui é Edge. Eu não achei o suficiente. Solicitando permissão para "brincar" com o Aster.

 

Em vez do operador, Mishima respondeu.

 

“Edge, não seja idiota e volte rapidamente!”

 

“Isso é ruim. Aster, você concorda não é?”

 

“Aqui é Aster, voltarei para a base imediatamente”.

 

O som da risada abafada de Nagase podia ser ouvido no alto-falante.

 

Mishima franziu a testa, mas a maioria dos observadores no centro de vôo riu.

 

Zero Dois obedientemente entrou no curso de retorno, mas não voou diretamente. A aeronave estava sendo jogada para a esquerda e para a direita como se o piloto estivesse bêbado.

 

Era óbvio que ela estava feliz em conseguir uma vitória em sua primeira experiência DACT.

 

Voando atrás de Nagase, Asano a assistiu com um sorriso amargo, mas mudou para uma expressão séria quando viu um pontinho no radar do Zero Um.



 

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“Edge, eu detectei um bando de pássaros no radar. É melhor você também ligar o seu radar.”

 

Como estava lutando contra aeronaves furtivas durante o combate simulado, o ASF-X havia parado de emitir ondas eletromagnética ao desligar o radar ativo. O Zero Dois de Nagase ainda estava voando nessa condição.

 

“Aqui é Edge, ligando o radar.”

 

Nagase apertou o botão no painel frontal à sua frente. Mas o radar ativo não ligou.

 

Ela apertou o botão novamente, mas ainda nada mudou.

 

"Aqui é Edge, o radar não liga."

 

Desta vez, o operador do centro de controle foi quem transmitiu.

 

"Edge, você sabe a causa do porque ele não liga?"

 

O Nagase pressionou um botão, e o MFD no lado direito do console mostrou a exibição de dados de voo com itens de verificação.

 

Ela seguiu o procedimento e checou cada um, mas a causa ainda era desconhecida.

 

"Aqui é Edge, eu fiz as verificações básicas, mas a causa ainda não está clara. O FDD* mostra que não há problemas com o radar”.

 

*Flight Data Display (Tela de Dados de Voo)



 

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“Edge, confirmamos que a causa da falha é desconhecida. Volte para a base imediatamente”.

 

Enquanto tentava responder, Nagase viu um ponto negro se aproximando diretamente na frente dela.

 

Bang!

 

Houve um barulho alto e Nagase perdeu momentaneamente a consciência.

 

Depois de recuperar sua consciência depois de alguns segundos, ela percebeu que a canopi d Zero Dois havia sido quebrada em pedaços. O som do vento soprando pela canopi quebrada cercou Nagase.

 

Uma parte da viseira do capacete estava rachada e a visão de ambos os olhos estava manchada de vermelho.

 

Foi um uma colisão com um pássaro?

 

Mesmo assim, era impossível que a canopi de um avião de caça fosse danificada ao bater em um pássaro. No entanto, a aeronave estava sem canopi.

 

Lentamente, a vermelhidão em sua visão ficou mais escura e ficou mais difícil de ver na frente dela.

 

“Mayday, mayday! Aqui é Edge, a canopi foi perdida graças a uma colisão com um pássaro.

 

“Edge, Edge. Relate os dano além da canopi.”

 

“A visibilidade está baixa. Não consigo ler a exibição do HUD ou do MFD. ”

 

"Edge, sente alguma dor?"

 

"Não há dor."



 

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O clima de comemoração dos membros do Esquadrão Conjunto de Avaliações de Teste no centro de controle acabou.

 

“Major Mishima, o ASF-X deve ter um sistema incluído para uma formação coordenada voando que possibilitasse o controle remoto da aeronave. Nós poderíamos resgatá-la dessa maneira?

 

"Este sistema está incorporado, mas atualmente o sistema de comando não está completo, por isso é impossível orientá-lo a partir do solo".

 

"Que tal a partir do Zero Um?"

 

"Teoricamente, é possível, mas não há software de controle nele."

 

A única maneira era Asano dar a orientação e Nagase pilotar a aeronave.

 

Asano acelerou o Zero Um e voou ao lado de Zero Dois, verificando a condição da aeronave.

 

“Edge, Edge. Aqui é Aster. Não posso confirmar nenhum dano além da canopi.”

 

Asano olhou para Nagase através da canopi quebrado. Ele viu que a área do capacete e do braço do traje de voo estavam manchadas de vermelho.

 

"Edge, você está segurando o stick de vôo?"

 

“Aqui é Edge. É claro, Asano."

 

Pelo fato de Nagase não ter chamado Asano pelo seu codinome, Asano sentiu que Nagase estava bastante machucada mentalmente.



 

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“Edge, vamos olhar para a ISS-II* novamente”.

 

Aqueles no centro de controle não entenderam o significado, mas Edge confiou no julgamento de Asano.

 

“Aster, você quis dizer algo romântico? Apresse-se e comece a trabalhar.”

 

A risada de Asano pode ser ouvida na transmissão.

 

“Edge. Estou indo ao trabalho. Seu curso e altitude estão mais ou menos de acordo. Continue o voo como está”.

 

“Aqui é Edge, continuarei a voar do jeito que estou.”

 

Embora Nagase estivesse ferida ao ponto de que quase perdeu sua visão, ela estava plenamente consciente e foi capaz de retornar à base aérea sem problema ao seguir orientação de Asano.

 

Se fosse um avião do século 20, o pouso exigiria um alto nível de habilidade, mas isso não é tão verdadeiro nos aviões atuais. Em todos os aeroportos por onde passam os aviões a jato, o ILS (Instrument Landing System / Sistema de Pouso por Instrumentos) é instalado de modo que é possível pousar com segurança mesmo com pouca visibilidade.

 

No entanto, é preciso poder ver o console para realizar um pouso de instrumento.

 

“Aster, o controle está monitorando o HSD (Display de Status Horizontal) do Zero Dois, e irá transferi-lo para o Zero One. Exiba-o no MFD apropriado. ”

 

*International Space Station II (Estação Espacial Internacional II)



 

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O HSD do ASF-X pode ser mostrado arbitrariamente em qualquer MFD e mostra não apenas o status horizontal, mas também o rumo, o mapa e todas as outras informações necessárias para navegação. Se o equipamento no lado do aeródromo é adequado, é possível pousar sem olhar para fora do cockpit ao usar apenas o HSD (em teoria).

 

As leituras no HSD podem ser feitas pela torre de controle, mas Mishima decidiu que seria melhor que Asano o guiasse, já que ele estava voando ao lado de Nagase.

 

“Edge, siga minha orientação e entre em aproximação. Eu vou ler o HSD.

 

“Aqui é Edge, diga logo o rumo, a altitude e a distância do Zero Dois até a pista. Eu vou aterrar com os olhos fechados e as orelhas fechadas.

 

Nagase não quis ser pretensiosa com suas palavras.

 

Sem Asano dar indicações para corrigir a trajetória de vôo, Nagase pousou com segurança o Zero Dois.

 

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Descobriu-se que a causa do mau funcionamento do radar era porque o centro de controle não havia parado a simulação do confronto simulado. O radar não estava danificado, mas simulava o fato de ter sido destruído.

 

Zero Um e Zero Dois não tiveram danos que pudessem prejudicar o voo, por isso ninguém percebeu que o simulador ainda estava ativado, ele só foi desligado depois do pouso e das inspeções.



 

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O maior problema era a canopi. Não houve nenhum problema no teste de destruição da canopi, que foi construída usando o mesmo processo de design e que não deveria ter sido quebrada ao acertar um pássaro.

 

Havia uma grande possibilidade de defeitos no processo de fabricação, criando uma concentração de tensão, mas como não havia muitas canopis de reserva, era difícil confirmar isso. Se foi um defeito na fabricação, o problema era enorme. Se não, havia possibilidades de que a causa viesse do método de processamento para torna a canopi mais furtiva ou o novo material usado.

 

De qualquer forma, não havia escolha a não ser suspender os voos da ASF-X por algum tempo.

 

-------

 

“Ei Nagase. Como via a vida de hospital?”

 

Sonoda entrou na sala e brincou enquanto observava Nagase levantar a parte superior do corpo da cama.

 

Nagase fez uma careta.

 

"Se eles me disserem que é bom deixar a cama, eu não vou te perdoar."

 

Oose, que já estava a visitando, deu uma gargalhada.

 

Na realidade, não havia razão para ela dormir na cama. Ela foi ordenada a ficar na cama por Mishima até que os resultados do exame completo fossem liberados.

 

Nagase estava ferida. Uma vez que havia a possibilidade de comprometimento dos nervos faciais por voar sem uma canopi por um longo período de tempo, ela foi hospitalizada e completamente examinada por precaução.



 

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Os restos do pássaro atingiram sua cabeça diretamente, e se ela não estivesse usando um capacete, provavelmente teria sido uma morte instantânea. No entanto, o capacete de voo FH-1SS2 criado exclusivamente para o ASF-X e era resistente, Nagase não teve ferimentos, perdendo apenas a consciência por um instante.

 

Depois de ser liberada do hospital, foram tiradas radiografias de sua cabeça, seu eletroencefalograma foi tomado e, finalmente, uma ressonância magnética foi usada para medir a tomografia da cabeça, mas todas estavam livres de problemas.

 

Sua visão tinha sido obstruída pelo sangue do pássaro que caiu em seus olhos.

 

É claro que havia perigos de ficar cego devido a isso, então um tratamento cuidadoso e testes rigorosos foram realizados, mas foi confirmado que não havia nenhum dano que permanecesse.

 

Até Asano veio e visitou.

 

"Ei, Asano."

 

"Tudo bem?"

 

"Quando será a próxima vez que a ISS-II será visível?"

 

Asano mostrou um sorriso.

 

“Infelizmente, serão cerca de dois meses. Talvez não consigamos enxergá-la pois estaremos ocupados.”

 

"Eu a verei!"

 Capítulo 3 

Conspiração
 

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"Da Xiao, um exercício ocorreu com o Q-X e ASF-X, e parece que o Q-X foi derrotado."

 

Esta foi uma notícia infeliz para Da Xiao, que estava entusiasmado com o Q-X.

 

"Que tipo de condições estavam em vigor durante o exercício?"

 

"Foi apenas um confronto 2 contra 2 sem condições especiais."

 

"O Q-X foi realmente abatido?"

 

“Esses covardes não usariam armas de verdade em exercícios. Eles chamam isso de treinamento para combate real, mas é o mesmo de sempre. ”

 

Ele esticou o dedo indicador de sua mão direita segurando-a como uma arma, apontando-a para a janela.

 

"Bang, você está morto!"

 

Da Xiao começou a rir.

 

“É um exercício com regulamentos firmes para que não haja perigo. É diferente de uma luta real em que a vida dos pilotos está em jogo. ”

 

“Mesmo assim, acho que o ASF-X tem esse tipo de desempenho.”



 

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“Esses caras parecem ter chegado a essa conclusão. Depois, estarei a espera de um relatório detalhado sobre o evento.”

 

As vantagens do Q-X não podem ser medidas apenas com exercícios. No combate real, provavelmente haveria pilotos que valorizassem suas vidas e não seriam capazes de lutar de forma tão ousada ​​quanto os drones. Aqueles eram os pensamentos de Da Xiao.

 

Para simplificar, não importa qual informação nova foi recebida, a obsessão de Da Xiao com o Q-X não mudou.

 

A República vinha desenvolvendo e implementando diferentes tipos de aeronaves ortodoxas, mas também estava interessada em desenvolver armas secretas.

 

Muito esforço foi feito em direção a aeronaves não tripuladas em particular, de aeronaves de controle remoto parecidas com brinquedos a aeronaves de bombardeiros em escala real, e tantas variedades estão sendo desenvolvidas que os militares da República mal conseguiam entender tudo isso. Todos e cada um deles foram chamados de “uma aeronave revolucionária de alto desempenho”, mas havia apenas alguns que realmente poderiam ser úteis.

 

O próprio Da Xiao participou do desenvolvimento dessas aeronaves não tripuladas e ficou orgulhoso das que completou, acreditando que elas eram muito boas. No entanto, enquanto procurava informações sobre aeronaves não tripuladas de outros países para referência, o Q-X chamou sua atenção em particular.

 

Primeiro, era incomum que um único operador pudesse operar várias aeronaves.

 

Outros drones que podiam ser operados por menos pessoas do que aeronaves eram todos independentes ou totalmente autônomos, e seu ponto de venda era que eles tinham a capacidade de realizar missões sem instruções do operador. No entanto, o Q-X foi o oposto e enfatizou o fato de que ele era semi-autônomo, com a aeronave sob controle do operador em tempo real.



 

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Da Xiao ficou fascinado por isso.

 

Mas seu apelo número um foi o fato de que o Q-X triunfou contra um jato de combate em uso atual durante um confronto simulado. Força é justiça.

 

O Q-X tinha a atenção de muitas pessoas além de Da Xiao nas forças armadas da República.

 

O Q-X foi o primeiro projeto de grande escala a utilizar a mais nova rede de satélites GPS e é um exemplo valioso das habilidades e dos métodos de uso da rede. Se as habilidades do Q-X se tornarem conhecidas, será possível conhecer os recursos da rede.

 

A República detectou que o centro de conexão da rede estava instalada na ISS-II e tentou, sem sucesso, enviar um espião para a própria estação. No entanto, devido a sua falha, a República desejava cada vez mais dados sobre a nova rede de satélites GPS.

 

Eventualmente, quando foi confirmado que o Q-X tinha a capacidade de vencer jatos de combate de geração mais velha, os envolvidos na República tremiam de medo. Se um caça-bombardeiro barato como o Q-X fosse produzido em massa, o equilíbrio de poder na área, que a República dominava, finalmente mudaria.

 

Da Xiao começou a procurar maneiras de adquirir o Q-X e atrapalhar ainda mais seus planos de desenvolvimento.

 

Houve a necessidade de, pelo menos, criar um atraso para o Q-X.

 

Uma tentativa de assassinato de membros-chave para o desenvolvimento já tinha até sido considerada, mas o plano foi abandonado, já que os assassinos adequados não podiam ser preparados a tempo.

 

O plano alternativa se solidificou rapidamente.

 

Afinal, Da Xiao não queria apenas criar um atraso para o Q-X, mas também queria fabricar o seu próprio. Pode-se dizer que a estratégia potencial já tinha sido decidida desde o início.



 

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Não demorou muito para que a tática fundamental de Da Xiao de roubar dados e hardware tomasse forma.

 

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Olhando para os resultados, o combate simulado do ASF-X com o Q-X trouxe bons resultados para ambos os programas.

 

O programa ASF foi capaz de espalhar a impressão de que estava progredindo sem problemas, e as interrupções de todos os tipos de lugares diminuíram. Em vez disso, o Ministério da Defesa estava ocupado tentando acalmar as negociações excessivamente otimistas de que isso equivaleria a ter o Advanced Support Fighter já completo.

 

Por outro lado, embora o Q-X tenha perdido para o ASF-X, ele conseguiu mostrar seu alto desempenho, distinguindo-se de aeronaves não tripuladas existentes e impressionando os burocratas do governo. No final, as noções preconcebidas de pessoas de fora contra aeronaves não tripuladas mudaram para melhor, e o Q-X foi avaliado como bom o suficiente. A alta classificação também foi aceita fora do país, e os participantes do programa Q-X foram informados de que as pessoas nos Estados Unidos estavam solicitando participação direta nos planos de desenvolvimento.

 

Aqueles no projeto Q-X pareciam satisfeitos com seu estado atual, e não havia nenhuma voz pedindo uma revanche.

 

Além disso, devido a sua beligerância em estar satisfeita com a luta contra o Q-X ou se ela estava sendo mais cuidadosa após o acidente, Nagase parou de ficar obcecada com o confronto simulado entre ela e Asano.



 

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Graças a isso, o Esquadrão Conjunto de Avaliações de Teste poderia se concentrar em vôos de teste normais. Zero Um e Zero Dois demonstraram desempenho estável sem falhas e os testes continuaram sem problemas.

 

O desenvolvimento foi um pouco preocupante, uma vez que parecia progredir muito rapidamente, mas ninguém poderia negar que o ASF-X foi bem feito em todos os sentidos da palavra.

 

Nagase e os outros pilotos de teste passavam todos os dias com muita margem de sobra.

 

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Nagase pressionou o acelerador com a embreagem removida e verificou a integridade do motor.

 

Apenas ouvindo o som, ela poderia dizer que o motor de 250 cc em sua amada motocicleta estava funcionando sem problemas. Para ter certeza, ela olhou para o contador de revoluções e viu que estava estável em boas revoluções.

 

Toda vez que Nagase olhava para o contador de rotação, ela tinha o hábito de se perguntar por que as pessoas na sociedade o chamavam de tacômetro e se sentia enojada. O "tacô" no tacômetro significa "velocidade" no inglês americano. As pessoas da Inglaterra apropriadamente chamam isso de rev-counter (contador de rotações).

 

Como piloto de caça, alguém poderia pensar que ela tem uma personalidade ampla, mas Nagase era surpreendentemente exigente com algumas coisas.

 

Satisfeita com a manutenção, Nagase recolocou as ferramentas de volta e fechou a caixa de ferramentas.

 

"Você é muito habilidosa.”

 

Um mecânico que estava assistindo Nagase consertar a moto a elogiou.



 

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"Não consigo consertar aviões, mas tenho experiência com esse meu bebê aqui."

 

O velho mecânico riu ao ouvir a jovem Nagase falar sobre a experiência, mas estava falando sério sobre a boa manutenção de Nagase.

 

A motocicleta era um passatempo que Nagase desfrutava sozinha.

 

Claro, ela gostava de andar de motocicleta, mas o tempo gasto para mantê-la assim era algo com que ela não se importava. Ao andar de motocicleta, ela preferia andar sozinha em silêncio e odiava fazer isso em grupos.

 

"Você não vai sair com ela?"

 

"Bem, não estamos autorizados a sair hoje."

 

“Nossos mecânicos que gostam de motocicletas andam com elas na pista de decolagem reserva. Por que você não se junta e anda com eles um pouco?”

 

Nagase hesitou. Ela até teve um pequeno desejo de andar de motocicleta. Mas havia uma distância delicada entre pilotos e mecânicos, então havia uma certa relutância em se misturar com os mecânicos e andar de moto.

 

“Eu gostava quando era mais jovem. Eu vou com você, então vá se juntar a eles.”

 

Nagase decidiu aceitar a gentileza do mecânico veterano.

 

Nagase se juntou ao grupo e começou a andar na pista depois que ela os cumprimentou.

 

Depois de um tempo, Nagase realmente começou a andar com os mecânicos. Havia um tipo diferente de diversão enquanto andava e apostava corrida junto com os outros ao invés de andar sozinha.



 

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Asano assistia inexpressivamente Nagase e os mecânicos andarem de um lado para o outro na pista de reserva pelas janelas do dormitório. Asano tinha poucos hobbies e, em seu tempo livre, não fazia nada enquanto ouvia música. Caso contrário, ele bebia álcool. Ocasionalmente, ele fazia algum treino de pesos.

 

Na verdade, Asano costumava andar de moto no passado. Em seus anos de faculdade, ele estava em um clube de motocicleta particular e participava de corridas de grama realizadas durante o fim de semana. Asano sempre terminava em primeiro lugar, independentemente da corrida, e até foi convidado para se tornar profissional. Se ele tivesse sentimentos normais, Asano provavelmente teria se tornado um motociclista profissional naquele momento.  ...Mas a realidade era diferente.

 

Asano percebeu que, em algum momento, ele não estava mais satisfeito com a velocidade. Ele percebeu que não estava satisfeito, não importava o quanto ele abrisse o acelerador.

 

A partir de então, ele buscou velocidade como se fosse uma garganta seca procurando água.

 

Mais rápido, mais rápido que qualquer outro.

 

Como resultado, Asano acabou sofrendo um acidente. Na fase final da corrida, ele escorregou quando dava a volta na última curva e foi jogado para o alto. Felizmente, ele não teve nenhum ferimento grave, mas Asano sentiu uma sensação indescritível de liberdade enquanto flutuava no ar. Asano percebeu que seu desejo não poderia ser encontrado no chão, mas no ar. No final, Asano parou de andar de motocicleta após o acidente.

 

Seu lugar não estava aqui, mas no céu.



 

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Na primavera do ano seguinte, Asano teve a change de se alistar na JASDF como candidato a vôo executivo.

 

“Mais rápido do que ninguém, mais longe do que ninguém, huh...”

 

Asano estava olhando para Nagase, que estava rindo com os mecânicos em torno de suas motos.

 

Parecia que ela era alguém que iria despertar o passado que ele estava escondendo.

 

"...."

 

Asano silenciosamente fechou as cortinas da sala.

 

====

 

"Eu vou perguntar de novo. Você realmente quer fazer isso com essas regras?

 

O jovem de rosto vermelho parado na frente de A Xi bateu na palma da mão esquerda com o punho direito perto do peito, enfatizando que estava motivado.

 

“Não tenho mais intenção de fazer isso com essas regras vagas. Eu sou um piloto de caça real. Se os instrutores negarem essas regras, eles perderão automaticamente. Todos nós vamos rir deles. Você não é mais um instrutor ou piloto de caça.”

 

A Xi encolheu os ombros.

 

O jovem foi elogiado como um piloto de nível excelente em seu esquadrão passado e desde então se tornou bastante egoísta. Teria sido bom se ele percebesse que ele era mediano nesse novo esquadrão onde o talento estava reunido, mas ele era um idiota estereotipado que entrava em uma discussão com os instrutores antes de perceber isso.



 

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“Então assine este documento. Falando de um modo grosseiro, aqui diz que essas regras foram propostas por você e você assumirá a responsabilidade, independentemente do resultado.”

 

"Os instrutores não vão assumir responsabilidade?"

 

“Eles não têm intenção. Na realidade, tudo é como você pediu. Diz até que eu propus rever as regras para aumentar a segurança, mas você as rejeitou.”

 

A Xi olhou para o oficial de alto nível atrás dele.

 

"Comandante, você é uma testemunha também. Você terá que assinar isso conosco.”

 

O comandante estava tremendo ligeiramente.

 

“A Xi, você tem a opção de não fazer o duelo. Não há uma obrigação de aceitar o desafio.”

 

Um Xi torceu os lábios enquanto coçava o queixo.

 

Seu homem covarde. Quantas aeronaves de combate foram perdidas devido à indecisão deste comandante?

 

"Não, não existe. Além disso, não é um duelo, mas é um treino para um combate simulado. Se não me engano, os duelos devem ser proibidos por lei. As regras podem ser estúpidas, mas eu sou um instrutor que respeita a independência de um aluno. Para continuar meu trabalho como instrutor, não posso recusar. Você ouviu o que ele disse certo?”

 

A Xi tinha pouca esperança de que, ao dar responsabilidade ao comandante, ele tentaria impedir o confronto.



 

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Mas no final, o comandante assinou o documento.

 

A regra era a morte súbita, e o primeiro avião que fosse atingido perderia. A determinação de acertos não seria feita através de lock-ons pelo FCS, mas através da verificação dos impactos reais.

 

Para o canhão automático, usaram-se cartuchos de resina colorida usados ​​para a prática de tiro, enquanto os mísseis eram os usados ​​para a prática de alvo, onde as ogivas eram substituídas por lastro em vez de explosivos. Em ambos os casos, se atingisse uma parte crítica, seria desastroso.

 

Nos países ocidentais, todos os envolvidos seriam presos por tentativa de homicídio antes do início do duelo. Mesmo antes disso, os  pagadores de impostos provavelmente se queixariam em voz alta.

 

Dois aviões de combate com o mesmo armamento foram preparados.

 

Os aviões em que os pilotos voariam eram determinados por um sorteio, e os dois começaram os preparativos para o lançamento. O desafiante começou sua decolagem primeiro, mas A Xi começou sua decolagem antes do outro decolar completamente.

 

Confirmando que o desafiante estava subindo e indo para o leste, A Xi temporariamente estabeleceu seu curso para o oeste.

 

Em pouco tempo, o controle de vôo anunciou o início do exercício.

 

A Xi retornou ao espaço aéreo acima da base e começou a voar indo e voltando sobre a pista a uma altitude de cerca de 5.000 metros.

 

"Caia morto, A Xi!"



 

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A voz do desafiante veio pelo rádio. Se ele tivesse começado o exercício com a boca fechada, ele teria aumentado sua chance de ganhar por pelo menos um por cento.

 

Não era que ele não soubesse de onde o desafiante iria se aproximar porque era uma aeronave furtiva.

 

É diferente de uma luta real em que não se sabe quando, de onde ou se o inimigo vai atacar. Se ele se mostrasse, 8 ou 9 vezes em dez, ele sabia que atacariam pela retaguarda.

 

A Xi imediatamente encontrou a aeronave inimiga. Um pouco atrasado, um sensor avisou que ele estava sendo rastreado por um radar hostil.

 

Antes que ele pudesse travar a mira, ele deslizou sua aeronave para a esquerda e subiu enquanto escapava de seu alvo. Observando o desafiante passar por cima dele, A Xi retornou à sua altitude original.

 

“Hao Ji, acabou. Desista."

 

Percebendo que o inimigo tinha chegado a sua cola, o desafiante virou o avião para a esquerda e direita para sacudi-lo. A Xi moveu seu avião para a esquerda e para a direita para seguir o caminho da aeronave que escapava.

 

Era uma típica manobra de tesoura, mas só era típica porque A Xi estava fazendo isso de propósito. Ele deixou seu radar de mira ligado, então o desafiante deveria entrar em pânico dentro de sua aeronave.

 

Mesmo que a aeronave fosse a mesma, ficou claro para qualquer um que observasse que havia uma enorme disparidade no nível de habilidade dos pilotos.

 

A Xi estava esperando que o jovem tolo estivesse sentindo um pouco de arrependimento.

 

“Hao Ji, aqui é A Xi. Se você declarar uma parada para este exercício agora, eu deixarei isso passar como um empate.”



 

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"Eu me recuso!"

 

"Tudo bem então."

 

A Xi trancou sua mira e disparou um míssil ar-ar.

 

Lançado à queima-roupa, foi um golpe direto no bocal do motor direito. O jato de combate girou horizontalmente como um frisbee e começou a perder altitude rapidamente.

 

O piloto não foi ejetado. Se ele ainda estivesse vivo, é provável que ele estivesse inconsciente.

 

O caça caiu perto da pista da base e explodiu. Mesmo que o míssil não tenha explosivos, um jato de combate está totalmente carregado de combustível inflamável.

 

Ele fez uma coisa inútil.

 

Um jato de combate e equipamentos do mais alto nível foram perdidos, junto com um piloto de habilidade razoável.

 

Que cara mal-humorado. Se aquele idiota tivesse treinado aqui por um ano, ele teria pelo menos ganho sabedoria ao nível de não brigar comigo. Então ele teria muitas coisas para esperar no futuro.

 

Mas era tarde demais.

 

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O "Esquadrão Imortal" em que A Xi estava alistado não existia nos esquadrões oficialmente anunciados, e todos os membros eram chamados por nomes de código. O nome e a localização da base de treinamento eram secretos. Claro, não estava no mapa.



 

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E finalmente, os jatos de combate que foram fornecidos eram armas secretas.

 

"A Xi, você poderia decolar no CFA-44 da nave-mãe aérea?"

 

Os homens chamados Da Xiao e A Xi tinham feições cinzeladas ao estilo europeu e claramente não eram desse país. Como mercenário, o nome real ou a história pessoal de A Xi eram conhecidos apenas por alguns poucos, mesmo na República. De fato, poder-se-ia dizer que ele se encaixava como instrutor no esquadrão secreto.

 

“Essa é uma pergunta estúpida para perguntar. A nave-mãe aérea foi criada para esse propósito e o treinamento já está avançando. Claro que posso fazer isso.”

 

Ele não gostava da atitude rude que ele tomava com os superiores, mas ele não podia negar que A Xi era um excelente piloto. Não havia ninguém mais adequado e ideal do que este mercenário para a operação planejada por Da Xiao.

 

A elite da Força Aérea da República está reunida no Esquadrão Imortal, mas geralmente pilotos de caça da República que eram vaidosos e mal-educados e membros do Esquadrão Imortal não eram exceção. Em qualquer ocupação, os humanos incivis nunca se tornam os melhores.

 

Servindo como instrutor de pilotos dentro dessas fileiras, A Xi era um homem razoavelmente composto e inteligente. Talvez até mesmo de coração frio.

 

"Caso precise de um lembrete. Fique ciente que essa é uma missão importante.”



 

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A nave-mãe aérea refere-se a uma aeronave de transporte que transporta jatos de combate e pode lançá-los em vôo. Juntamente com aviões de reabastecimento aéreo, é um método de aumentar drasticamente o alcance de um avião de combate. Em comparação com um avião-tanque, há muitos aspectos de desperdício, mas é um favorito entre os envolvidos na força aérea.

 

“Eu quero seqüestrar uma aeronave acima do espaço aéreo inimigo. Requer um planejamento preciso e uma improvisação audaciosa ”.

 

A Xi sorriu.

 

"Então não podemos enviar ninguém além de mim."

 

Para A Xi, ele não sentia necessidade de cuidar de um aluno. A opinião franca de A Xi era que o grupo era um bando de idiotas. Ele achava que os critérios de seleção e a maneira de ensinar da República estavam errados.

 

Da Xiao concordou com A Xi sobre este ponto. Não havia pilotos suficientes como A Xi que fossem úteis.

 

O CFA-44 era um caça stealth de alto desempenho desenvolvido pela República. Seu codinome era “Nosferatu.”

 

Há muitos aspectos suspeitos nos detalhes do desenvolvimento. A notícia de que esta aeronave foi desenvolvida independentemente pela República era a primeira suspeita, e a possibilidade do influxo da tecnologia de um país estrangeiro tem sido apontada, mas não havia margem para duvidar que o Nosferatu era um excelente avião de combate. A Força Aérea da República acredita que o Nosferatu era substancialmente superior a outros caças de última geração de outros países.

 

Apesar disso, houve um detalhe negativo em que o Nosferatu foi rejeitado em seu uso por porta-aviões, embora tenha sido originalmente desenvolvido para ser carregado em porta-aviões, pois seu ponto fraco era que ele estolava facilmente.



 

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Desapontados em perder essa habilidade avançada, os militares da República adotaram-na para uso na Força Aérea, mas não a implantaram em grandes números, e ela foi usada silenciosamente para uso exclusivo pelo Esquadrão Imortal como uma arma secreta. Ao fazer isso e usar as habilidades de vôo de pilotos de nível elevado como uma premissa para melhorar a manobrabilidade, o resultado foi um caça que não tinha estabilidade e tinha tendências severas.

 

O Nosferatu tem inúmeras fraquezas, mas se um piloto habilidoso com muito treinamento o pilotasse, poderia ser dito que era um caça relativamente poderoso.

 

A instrução de Xi era apropriada, e os pilotos do Esquadrão Imortal certamente estavam ficando mais habilidosos. Em comparação com outros esquadrões, eles eram definitivamente pilotos superiores.

 

No entanto, era diferente quando se considera se eles eram adequados para pilotar o Nosferatu.

 

A Xi pensou que a maioria dos pilotos do Esquadrão Immortal era incompatível com o Nosferatu, e disse isso abertamente e sem reservas. Como resultado, A Xi era odiado ao extremamente por seus alunos, os pilotos do Esquadrão Imortal.

 

Não havia escassez de membros que realmente desafiavam A Xi em uma luta.

 

Fundamentalmente, A Xi nunca recusou um desafio de um membro do esquadrão como parte de seu treinamento. As condições da luta mudavam de tempos em tempos, mas A Xi nunca perdia. Mesmo assim, os desafiantes vinham rotineiramente.

 

Intensas batalhas aéreas simuladas ocorreriam ocasionalmente, e os membros repetidamente derrotados causavam acidentes maiores. Houve baixas, e o ódio a A Xi pelos membros do Esquadrão Imortal cresciam ainda mais.



 

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Isso era uma infelicidade para Da Xiao.

 

Ele não poderia remover A Xi de sua operação, mas isso significava que ele não poderia enviar pilotos do Esquadrão Imortal como apoio. Os membros do Esquadrão Imortal provavelmente puxariam as pernas de A Xi agressivamente em vez de cooperar.

 

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“Eu sempre penso sobre isso, mas não tenho certeza sobre o hobby de Oose com computadores já que ele é um piloto. Isso é ruim para os seus olhos. Sua visão vai piorar. Você não poderá pilotar o F-3.”

 

"Cale-se!"

 

Oose sacudiu violentamente a testa do mecânico que espiava o monitor do laptop do alto de seu ombro.

 

"Ai!"

 

"Isso é porque você está tirando sarro do meu hobby."

 

Aproveitando o dia de folga, Oose e um mecânico com gostos semelhantes foram a um evento relacionado a computadores, mas todos pararam em um café a caminho de casa. Ao discutir sobre computadores, o tópico mudou para ataques cibernéticos pela República, e Oose estava prestes a mostrar um site que apenas alguns poucos conheciam.

 

Oose tinha um laptop pequeno que quase cabia no bolso de suas roupas de trabalho e um desktop de alta especificação que esquentava tanto que ele podia substituir o aquecedor do seu quarto, mesmo no inverno.



 

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Estes foram trazidos para que ele pudesse morar no dormitório da base como parte do programa ASF-X, mas a rede da base era fortemente restrita por razões de segurança, e ir para fora assim aproveitar a internet a vontade  se tornou uma boa mudança de ritmo para Oose. O programa que Nagase instalou no Zero Um foi criado justamente na área de trabalho de Oose.

 

“Opa, Oose, este é um site em inglês. Eu não posso ler.”

 

"Idiota. Olhe mais de perto, é em alemão. Aprenda, pelo menos, distinguir entre inglês e alemão. É o centro dos cracks ilegais por lá. Esses caras são incríveis. Eles até têm provedores que têm seus próprios satélites, para que não sejam fechados por nenhum governo.”

 

Oose elogiou-os de uma maneira que era difícil determinar se isso era bom ou não.

 

"Aqui, olhe para isto."

 

"Eu não consigo ler!"

 

“Ughh… Bem, em termos gerais, é informação que uma agência dos EUA espalhou um vírus para uma organização com atividades de rede ilegal na República. Ainda não foram publicadas notícias públicas. ”

 

"Isso é muito extremo, não é."

 

“De acordo com um hacker que estava observando a situação, parece haver um retorno para uma conexão não autorizada a uma base do exército dos EUA há algum tempo. Ele diz que uma mensagem alegando responsabilidade por isso foi espalhada pela internet ilegalmente.”



 

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Ninguém podia ler alemão além de Oose, mas seu computador foi passado para os mecânicos.

 

“É basicamente uma guerra. Quem é superior?”

 

"Provavelmente os Estados Unidos."

 

Haviam muitos mecânicos que ficaram surpresos com o fato de Oose achar que os EUA eram superiores.

 

"Falando da unidade cibernética da República, eles não são notórios?"

 

“Que nada, porque se tornar famoso em atividades de inteligência significa que você estragou tudo. A inteligência é toda sobre o segredo, então você cai fora quando se tornar bem conhecido.”

 

Naquele momento, muito longe, essa mesma unidade cibernética era o tópico da discussão.

 

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"Não usaremos a unidade cibernética desta vez?"

 

A pergunta feita por Jian Qiang, que acompanhava Da Xiao, era razoável.

 

O submarino de Jian Qiang deveria estar na linha de frente da operação. Qualquer força militar disponível era desejada.

 

Para compensar a diferença em sua força militar existente em comparação com os Estados Unidos e sua aliança, a República vinha militarizando vários campos em novas tecnologias. Entre eles, o mais promissor era a unidade cibernética que dominaria as redes de computadores.



 

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A unidade cibernética, que não deixava evidências conclusivas mesmo quando usava a força, coletava informações de outros países sem restrições e destruía sistemas. Dizer que a unidade cibernética já estava lutando na Terceira Guerra Mundial não era exagero.

 

Se solicitado, a unidade cibernética provavelmente alegaria que toda a operação poderia ser feita através do espaço cibernético.

 

“O plano é evitar a inserção da unidade cibernética o máximo possível. Somos bem conhecidos pelas nossas habilidades na guerra cibernética. Se mobilizarmos a unidade cibernética, isso poderia alertar o inimigo.”

 

O problema atual era que a unidade cibernética não tinha conseguido roubar nenhuma informação sobre o ASF-X, muito menos sobre o Q-X. Da Xiao achava que as habilidades da unidade cibernética não eram tão fortes quanto eles diziam.

 

“Você deve esperar grandes coisas sobre as habilidades do Nosferatu. Mesmo se o inimigo contra-atacar, A Xi deve ser capaz de exterminá-los sem dificuldade. Você provavelmente não precisará lançar nada do seu submarino.”

 

"Isso é lamentável."

 

Jian Qiang franziu os lábios para mostrar sua decepção.

 

Seu submarino era um antigo submarino de mísseis estratégicos modificado para uso em operações especiais.

 

Era um tipo especial que a República tinha apenas dois, e o espaço interior foi reorganizado para dar lugar a um centro de comando para operações especiais. Mesmo sendo um modelo antigo como um submarino de míssil, ele não é tão grande quanto modelos mais novos e características como velocidade são comparáveis.

 

Não pode navegar tanto quanto novos submarinos de mísseis estratégicos, mas era ideal como uma embarcação de apoio para operações complexas e de larga escala como esta.



 

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A operação de Da Xiao foi baseada em uma importante informação coletada pela inteligência.

 

O Q-X foi guiado usando a nova rede de satélites GPS. Esta informação era bem conhecida pelos militares. No entanto, havia um segredo que até mesmo os especialistas focados no projeto do Q-X e nos novos satélites de GPS ainda não sabiam.

 

Ou seja, uma parte do equipamento de orientação do Q-X está no espaço, no novo centro da rede de satélites GPS.

 

O controle da transmissão e a supressão da constante transferência de comunicação tornam-se um grande problema. O Q-X é o mesmo e o controle de seleção de dados é realizado em vários níveis de transmissão. Entre as informações recolhidas pelos sensores de vários Q-Xs, as informações desnecessárias não são transmitidas. No lado da orientação, um computador poderoso instalado no solo recebe as informações e as organiza antes do processamento.

 

No entanto, com apenas isso, a carga da rede é colocada mais na capacidade dos pequenos computadores equipados com o Q-X. Se os dados transmitidos pelo Q-X estiverem organizados em um ponto de retransmissão, a sobrecarga em toda a rede pode ser aliviada.



 

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Esse tipo de mecanismo de controle foi instalado na ISS-II. O mecanismo registra dados do Q-X que o mecanismo operacional baseado em terra não possui.

 

Se a natureza descartável do Q-X for considerada, a equipe de desenvolvimento provavelmente estaria preparada para os segredos da aeronave vazarem para outras partes. Foi necessário colocar os componentes mais secretos na ISS-II que tinha um acesso difícil.

 

Este mecanismo de retransmissão foi uma parte essencial no sistema Q-X que afetou a própria aeronave.

 

Como os dados de pesquisa para o desenvolvimento, os registros do mecanismo de controle na ISS-II foram preservados em um estado completo e, ocasionalmente, coletados pelo controle de solo. Ao mesmo tempo, o hardware em si é coletado durante a manutenção ou troca com equipamentos aprimorados.

 

Se estes fossem interceptados durante o transporte, isto ajudaria muito na análise do Q-X. Então, dificultaria a pesquisa para o lado que tivesse seus dados roubados. Na Terra, existem muitas alternativas para os métodos de transporte, e as regras sociais existentes são rígidas. Pelo contrário, atacar uma nave espacial seria menos problemático.

 

E se um novo SSTO* real junto com um piloto pudesse ser adquirido, a divisão de desenvolvimento espacial ficaria muito feliz.

 

*Single Stage To Orbit - Foguete para órbita em um único estágio

 

A República está atrasada na implementação de um SSTO para conectar a ISS-II ao solo. Existe uma nave espacial similar, mas há uma enorme diferença em suas capacidades e uma SSTO real.



 

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Pegue tudo o que você quer, e para as coisas que você pode pegar, pegue tudo.

 

Essa era a visão da vida de Da Xiao, e foi assim que ele ganhou seu status atual.

 

Mas ele queria mais.

 

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Sonoda, que estava observando Nagase pousar o Zero Dois verticalmente a partir do telhado do dormitório, ficou impressionado com o quão suave foi o pouso.

 

Embora ele estivesse na mesma base que Nagase e Asano, muitas vezes ele estava voando como escolta ou ficava no centro de controle, então hoje foi a primeira vez que ele viu Zero Dois aterrissar verticalmente com seus próprios olhos.

 

Quando Nagase se aproximou do pátio de aeronaves em baixa velocidade, ela diminuiu a velocidade ainda mais para pousar.

 

Era como se um pássaro estivesse pousando. Pode parecer que estava pousando enquanto avançava, mas foi um pouso vertical sem movimento para a frente depois de atingir o solo.

 

Ele já havia visto Harriers pousarem antes, mas aqueles pairam brevemente antes de cair verticalmente, então o voo de Nagase imediatamente após a aproximação pareceu mais gracioso.

 

A velocidade de aproximação do Zero Um também foi reduzida de antes, então a distância da pista foi encurtada ao ponto de parecer uma piada.

 

Mas comparado com o pouso vertical do Zero Dois, parecia que o Zero Um não tinha nenhum grau de liberdade, já que exigia uma pista para pouso.